quarta-feira, 7 de novembro de 2007

Efemérides Académicas (2)

13 de Novembro de 1594: Instalação da Irmandade de Nossa Senhora da Consolação na sua capela (hoje igreja) do Campo da Feira, então privativa dos estudantes.

9 de Dezembro de 1594: O provisor e vigário geral de Braga aprova os estatutos que os estudantes oficiais da confraria de Nossa Senhora da Consolação estabelecida na sua capela do Campo da Feira, fundada por Duarte Sodré, fizeram para a erigir em irmandade a fim de nela poderem entrar todas as pessoas, excepto as de condição vil, cuja confraria até então era exclusiva deles estudantes.

20 de Maio de 1662: Estando o Cabido em sessão capitular, aí apareceram os reverendos André Gomes Caveira, João da Silva Salgado e Tomás da Silva, os licenciados Marcos de Figueiredo, Francisco Barbosa, João Pereira do Lago, Francisco de Mesquita da Cunha, João Cardoso Soares, Domingos de Freitas e António Ribeiro, todos oficiais e instituidores da capela de S. Nicolau, e por estes todos foi dito que desde há muito tempo tinham tenção e devoção de fazer uma capela da invocação de S. Nicolau, para nela organizarem uma confraria e irmandade de Nossa Senhora da Oliveira, por ser lugar mais conveniente e bem assim pediam mercê do sítio para a edificação da referida capela. O Cabido acedeu gostosamente, porém, com certas condições, do que se lavrou contrato na nota do tabelião público Domingos Coelho.

5 de Maio de 1674: É dado conhecimento, ao corregedor de Guimarães, da carta de lei de 25 de Abril de 1674, para que os estudantes de Coimbra e outras pessoas que o não sejam, não possam pôr a capa pela cabeça nem trazer barrete, mas todos tragam chapéu, com pena de quem trouxer capa ou barrete sendo nobre será degredado por 5 anos para o Brasil, e sendo mecânico 5 anos para Angola, e uns e outros presos e logo remetidos ao Limoeiro da corte como respectivo auto.

[in Efemérides Vimaranenses, de João Lopes de Faria. Manuscrito da SMS.]

Nicolinas e Estudantes I

Reza a lenda que as Nicolinas tiveram origem nuns festejos medievos dos coreiros da Colegiada em honra de S. Nicolau. Falam-me de umas danças, ainda que tenha dificuldades em definir ao certo o que isto será…

Para começar, urge esclarecer o que são esses tais coreiros: clérigos, padres, que rezam no coro. Tinham o seu serviço protegido por estatutos antigos, que definiam o seu rendimento e demais direitos e, claro está, os seus deveres. Eram em número de 12, e para além deles, serviriam no coro seis padres capinhas. De entre os primeiros havia um que regia todo o coro: o chantre. Cabia-lhe a ele escolher os quatro moços do coro. Estes, sendo ainda moços, não teriam professado votos. Deveriam, no entanto, saber ler e escrever, e cabia a sua instrução em gramática e cantochão ao cónego Mestre-Escola.

Estranha-me, então, que para falarmos da origem das actuais festas tão profanas vamos buscar tão beatos padres. Se algum culto a S. Nicolau existiu, seriam então as conhecidas danças públicas medievais, levadas a cabo dentro dos templos, como homenagem ao santo. Fora deles, apenas havia as procissões… No entanto, desconheço qualquer registo de cultos na Colegiada no dia do santo bispo de Mira anteriores às da Irmandade.

Parece-me que teremos de procurar por outra origem para as actuais Festas. Se optarmos por ir na senda dos festejos dos estudantes, poderemos recuar século e meio face à instituição da Irmandade de S. Nicolau. Poderemos estudar um culto que ainda tem algum reflexo nas Nicolinas. Falo do culto a Nossa Senhora da Consolação.

Mas isso será assunto para outra conversa. Em breve…

Agradeço a frei António do Sacrifício Pelo Divino Sustento a ajuda prestada na elaboração deste artigo. A luz que emanou foi crucial para a elaboração deste documento.

terça-feira, 6 de novembro de 2007

Efemérides Académicas (1)

João Lopes de Faria, pelo Pintor Maltieira.

Ao longo de várias décadas, João Lopes de Faria, organista da Senhora da Oliveira, coligiu e transcreveu documentação sobre a história de Guimarães. Ao mesmo tempo, reuniu as suas “Efemérides Vimaranenses”, um monumental repositório de acontecimentos relacionados com Guimarães, distribuídos pelos 366 dias do ano, actualmente guardado na Biblioteca da Sociedade Martins Sarmento. Iremos dar início à publicação, neste espaço, das efemérides referentes às escolas, aos estudantes de Guimarães e às suas tradições.

12 de Abril de 1385: El-rei D. João I, querendo agradecer a frei Afonso de Guimarães que, sendo já doutor ou lente no convento de Coimbra, assistiu à sua aclamação, aprovando com sua autoridade este gravíssimo acto, escreve ao seu almoxarife do Porto ordenando-lhe "que lhe deis e pagueis em cada um ano dezoito aldas de pano para se vestir, qual for pertencente para o seu estado". Alda era uma medida de comprimento aproximada da vara, e que nesta época servia para medir panos. Frei Afonso de Guimarães ouviu as primeiras letras nas escolas públicas do seu convento de S. Francisco de Guimarães em que se lia gramática e casos de consciência. - Hist. Serph. por Fr. Manuel da Esperança, livº 1, cap. 53, pág. 70 e livº 2, pág. 413. - "Mais de duas centúrias (se lê na obra citada) de anos tivemos escolas públicas, nas quais se lia gramática e casos de consciência, sem ordenado, estipêndio ou prémio, senão só o proveito dos discípulos. Eram as aulas nesse tempo, neste terceiro convento, numas casas com porta para o adro, em que hoje se vê a enfermaria, etc." Idem.

25 de Fevereiro de 1512: Tem esta data a seguinte representação:"Senhor, os juízes vereadores da vila de Guimarães, beijamos as mãos de vossa alteza. O padre mestre João de Chaves nos fez uma fala em que entre outras coisas propôs que, considerando ele pelo experimento que tinha desta terra de Entre-Douro-e-Minho, quanta ignorância havia nela habitantes que eram mais ardentes no amor de Deus e instruídos nas coisas da fé, que se mostrou pelos muitos edifícios de casas de religião e multidões de igrejas que nela há em muito maior número e quantidade que em nenhuma parte dos reinos, e a causa principal era a ignorância das ciências e virtudes que por elas se adquiriam que era nas pessoas da religião e eclesiásticas e dissoluto viver deles que era e é em tanta maneira que parece coisa miraculosa como se sustêm vivendo em tanta cegueira o que tudo irá representar a vossa alteza e lhe apontará alguns remédios para se extirpar e reduzir a verdadeiro viver entre as quais fora procurar-se plantar nela pessoas cientes e virtuosas e fazer colégios e escolas onde se lesse e aprendessem as ciências e modos de servir e conhecer e acatar a Deus Nosso Senhor e movido vossa alteza por serviço de quem vos pôs em tão alto estado, nos prouvera se fazer um colégio em nossos reinos onde a ele dito mestre João parecesse e ainda dele nos mostrar nosso alvará e mercê que para isso fazia, o qual cuidado sobre o caso como quem tem tanta sede de trazer almas ao verdadeiro conhecimento de Deus, e lhes ensinar a gançar o pera que foram criadas assentou considerando tudo o que se deixa em tal caso este colégio se fazer nesta vila, uma das nobres de vossos reinos e procurou e procura com muita justança se pôr em obra como de facto já se fez e alguma ajuda para isso, com madeiras e outras coisas, porém por a pobreza da terra não pomos abastantes para muito e por ele consideramos e praticamos com Diogo Lopes de Lima Alcaide mor desta como o ouvidor do duque e Nosso Senhor que são pessoas que têm bom respeito a honra dela e achamos que sem sentir muito poderíamos por esta via dar algum adjutório a saber: lançarmos imposição na carne em cada arrátel mais um ceitil e pereceu bem e porque não queríamos o fazer sem autoridade e mandado de vossa alteza e porém lhe suplicamos e pedimos lhe apraza dar a isso sua autoridade e nos conceder esta mercê por dois ou três anos ou o tempo que houver por bem. Também, Senhor, fazemos saber a sua alteza que El-rei D. João o II que Deus tem, por fazer mercê a esta vila que lho pediu, lhe fez mercê da igreja de Murça para um pregador que pregasse nesta igreja de Nª Sª desta vila e ora o prior e cabido dela dão doze mil reais ao mosteiro que nos dá aqui pregador e o mais corrente em seu uso e porque ela rende muito mais e foi dotada para somente o pregador e é coisa que vem bem a este colégio, pedimos por mercê a vossa alteza lhe apraza a renda desta igreja se dar e atribuir para uma cátedra de teologia no dito colégio com a obrigação que o que a reger seja obrigado a pregar continuadamente na dita igreja, assim como ora faz o mestre. Receberemos infinda mercê ou, se vossa alteza houver por melhor lançar-se no vinho porque já temos para o concelho uma meia canada, lança-se outra meia e ser uma canada por almude, em qualquer maneira que o houver por bem nos fará infinda mercê. Deus Nosso senhor prospere seu real estado e acrescente a vida pela qual sempre, e mui edificadamente, rogaremos. De Guimarães a 25 dias de Feveriro de 1512. Diogo Lopes de Lima. Bartolomeu Afonso. Afonso... Estêvão Gonçalves. Pero Alvarez Dalmada, o ouvidor Fernão da Mesquita.( ..) sobrescrito a El-rei nosso senhor". Corpo Cronológico, parte 1ª, doc. 16.

segunda-feira, 5 de novembro de 2007

As Nicolinas há um século (I)

"A [banda] do João Inácio actuava principalmente, na minha lembrança, nas festas Nicolinas e na noite do “Pinheiro” lá vinha ela a desfiar o Hino de S. Nicolau, para o qual o velho amigo, e Nicolino, Torcato Simões engendrou a letra, já muito tardiamente para lha decorarmos, nesta terra onde não há queda para o canto.

No primeiro de Dezembro, à porta do “Afonso Henriques”, a estudantada, archotes acesos nas mãos dos garotos, soltava o grito “Ó Inácio, toca o Hino”, e aquela rapaziada desandava pelas ruas de Guimarães aos vivas, e um ou outro trauteava a letra adaptada, que começava assim:

“Ó homem da pêra branca!

Qu'é lá isso?”

Etc., etc, etc.

Depois eram as “Posses” e o Magusto, que terminava no alpendre da igreja de S. Pedro, dentro das grades, na distribuição das castanhas e da vinhaça à garotada, oleiros e música.

Geralmente o Inácio era caloteado pela Comissão Académica, que nunca prestava contas, e havia sempre um benfeitor que fiava a estudantada, nem sempre satisfeita, e parece que, afinal, o Inácio tinha certa afeição aos estudantes, como qualquer “nicolino”.

O homem do bombo era um preto, de bigodes grisalhos, que também distribuía o “Independente”, do Albano Pires de Sousa."

António de Quadros Flores (Coronel), Guimarães na última quadra do romantismo, 1898-1918, Tipografia Ideal, 1967, cap. XVII, pág. 54

sexta-feira, 2 de novembro de 2007

Cucusio

Raul Brandão

Véspera de S. Nicolau e toda a populaça na rua: uma mixórdia de grotesco e de caligens, de lama e gritos, de gestos confusos e de novelos pastosos que se acastelam lá no alto e barram o céu de horizonte a horizonte em pesadas cortinas sobrepostas. Vem a cerração e a chuva pegada e tão miúda que amolece o granito. Das ruas irrompem sucessivos magotes, num clamor de inferno. Na noite ressoam gritos, urros, e clarões de archotes revoluteiam tornando-a mais densa e profunda: fisionomias e gestos surgem de repente como aparições e logo se somem no pez. É uma mescla de negrume e fogo, de braços que se agitam, de doida ventania e chuva cuspinhenta. Os tambores rufam sem interrupção — dir-se-ia que o planeta estoira farto de sonho inútil — e do nada, iluminados a vermelho, brotam bamboleando e somem-se logo sem aparência de realidade, o arco medievo e a mole rendilhada da Sé, para depois a novo clarão ressurgirem só por momentos com a abóbada, o Cristo, as colunatas e os fantásticos recortes de muralha e sombras que tomam corpo e se amontoam nos vastos fundos onde o clarão não penetra. Uma derrocada em tropel, um jacto vivo de escuridão, um burgo de sonho entrevisto que o vento leva consigo.

A turba avança, a praça transborda: há milhares de bocas que gritam ao mesmo tempo. Aquele mar humano oscila, cresce, clama e dispersa-se. Quando os archotes se apagam, fica só a noite e o ruído; avivam-se os fogaréus e voltam a entrever-se as faces, as bocarras abertas pelos risos estúpidos, rasgados de orelha a orelha.

— S. Nicolau! S. Nicolau!...

É, na véspera da festa, o dia das posses, em que desde tempos imemoriais certas famílias estão na obrigação, que a populaça não perdoa nem perde, de dar, uns castanhas, outros lenha, vinho, pão, uma árvore. Forma-se o cortejo. Já estrondeiam os primeiros compassos da charanga, que desce a rua a passos marciais, archotes à frente. Um reboliço, mais berros, rufos desesperados, uivos, maltas que desaguam de outras vielas recônditas e a multidão que oscila e se espraia até à muralha da igreja. Em cima a abóbada negra do céu goteja lama e as névoas arrastam-se lentas e esponjosas, bambinela atrás de bambinela, pegam-se às paredes e deformam-nas, desagregam-se, suspendendo–se nas arestas do granito como grandes farrapos de luto. Os uivos redobram. O mesmo pé-de-vento parece que faz redemoinhar a canalha e galopar no céu os grossos novelos de fumo.

— A câmara! aí vem a câmara!...

Pendões balouçam-se, inclinam-se como velas sacudidas pelo temporal, a que se agarram meia dúzia de náufragos. Logo mais alto, se ouvem os clamores e a charanga ataca as primeiras notas duma marcha de guerra. Abre o cortejo o presidente do município, imponente e grave, com o pendão erguido; seguem-no, solenes, o Pinheiro Careca e outros tipos cerimoniosos, de sobrecasaca e chapéu alto, sob a chuva incessante. um vaivém: a mó de gente empurra-se e rodopia, mas organiza-se afinal o cortejo, depois de desordens e protestos; das tabernas irrompem os últimos matulas de suíças; e o céu todo lama desce, desaba, imenso, gelado e fétido, sobre a triste humanidade. Fúnebre, lá consegue o Testa, de cara rapada e olho em alvo, abrir a marcha com o pendão erguido ao vento.

O Careca pega com sofreguidão a uma borla, a charanga segue a passo cadenciado, e por último os magotes anónimos e confusos.

— S. Nicolau! S. Nicolau!...

E tudo aquilo, mar de uivos, treva, archotes, homens e fêmeas, urros e clarões, jorro desordenado e imenso, se engolfa nas ruas estreitas, numa interminável e ensurdecedora bicha. Aqui e além o fogaréu dum archote: dum lado a casaria, do outro a muralha antiga, compacta e bárbara, a que a noite dá dimensões monstruosas.

[…]

Por fim um jorro humano estaca diante dum prédio emudecido e escuro, os clamores e a música cessam e a bicha, depois de ondular, atende ansiosa. Novelos sobre novelos as nuvens continuam lá em cima a sua desordenada e eterna correria sem fito.

O pendão camarário oscila, há um baque, e, grave como quem cumpre um rito, o Testa destaca-se do grupo e avança limpando da careca o suor das grandes solenidades. Diante do prédio, no silêncio e na noite, três vezes chama:

— Cucusio! cucusio! cucusio!...

Nada. Ninguém responde, e um frémito percorre a turba que espera sempre, milhares de cabeças erguidas no ar, as bocas abertas como peixes diante da casa negra e cerrada. Para o fundo no negrume outros, e mais outros envoltos na escuridão, atendem também como quem espera um milagre. E ouve-se no silêncio a chuva cair, miúda, pegajosa, eterna. Pela fresta duma janela lá se escoa por fim uma ténue claridade — e ao fundo estremece, silenciosa e compacta, a canalha comovida e atenta, até que, avançando com imponência mais dois passos, o Testa, como quem invoca, implora e ordena, torna:

— Cucusio!...

Sente–se abrir o postigo do prédio e uma voz comovida responde afinal ao apelo:

— Pronto, meus senhores, cá está o Cucusio!...

E logo assoma ao peitoril do primeiro andar, alumiado pela chama vacilante da vela, um monstruoso traseiro — como, desde tempos imemoriais, é obrigação daquela família, na véspera do santo, transmitida religiosamente de pais para filhos, mostrá-lo à vila. A charanga ataca o hino, os tambores ao mesmo tempo rufam, os urros estrugem, o pendão oscila levado pelo Testa, no alto daquela onda, e o sr. Anacleto corre sem ver nem ouvir, desorientado.

Raul Brandão, A Farsa (1903), cap. III.

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João Cucusio vivia na Rua Nova, onde faleceu no dia 1 de Agosto de 1825. Costumava ser visitado, no dia 5 de Dezembro de cada ano, pelos estudantes, quando andavam “às posses”, que lhe faziam à porta uma grande gritaria: "Ò Cucusio mostra o cu" ao que ele sempre acabava por satisfazer, “vindo à janela mostrar-lhes o olho do cu”. (Fonte: Efemérides Vimaranenses, de João Lopes de Faria).

quinta-feira, 1 de novembro de 2007

Festejos dos Estudantes da aula de latim de Guimarães denominados de S. Nicolau (III)

Gaspar Roriz. Caricatura de José de Meyra (Arquivo da Sociedade Martins Sarmento)

Conclui-se a publicação de um testemunho (ver partes I e II) que veio a lume jornal O Comércio de Guimarães, sobre as festas do estudantes a S. Nicolau na segunda metade do século XIX:

"Sobre esta antigualha oferecemos aos nossos leitores os seguintes apontamentos dispersos:

No 1.º de Dezembro de 1821 o juiz de fora Bento Ferreira Cabral proibiu as máscaras.

A 28 de Novembro de 1822, um bando do intendente da polícia também as proibiu, mas depois duma representação dos estudantes feita a Sua Majestade D. João VI, em portaria de 2 de Dezembro, deu licença para os ESTUDANTES se mascararem nos dias 5 e 6 de Dezembro,

Por tão fausto acontecimento levantaram os estudantes a sua bandeira, havendo fogo do ar, repiques em todas as torres da vila, iluminações em todos os prédios, saindo uma encamisada, acompanhada de muito povo, que dava vivas às Cortes e a Sua Majestade.

Nos dias 12 e 13 de Janeiro de 1823 saíram os estudantes mascarados, acompanhando um carro triunfal com o retrato de D. João VI, cantando o hino nacional, e precedido duma brilhante dança.

No dia 10 de Março de 1837, venceram os estudantes suma demanda que traziam com o cabido, havendo por isso diversas manifestações de regozijo.

Os festejos escolásticos que, por assim dizer, tinham terminado com a extinção da aula de latim, renovaram-se em 1895, para o que muito tem contribuído o grande entusiasta por eles Jerónimo Sampaio, que oxalá eles não mais caiam em desuso, e se aperfeiçoem quanto mais se possa.

Permita-nos o snr. Jerónimo Sampaio que lhe lembremos, para fazer o uso que entender, um alvitre, que vinha sempre aos estudantes de latim, passadas as festas, e era de que se formasse uma espécie de centro académico, com quotas mensais, e recebendo subsídios durante o ano dos entusiastas antigos das festas, e dando-se durante o ano algumas récitas para tal fim.

Lembrava-se isto muitas vezes, mas nunca se realizava.

Apenas um ano se tentou organizar a Companhia Dramática de estudantes, em que entravam João Luís Gomes, António Joaquim de Azevedo Machado, João Joaquim de Oliveira Bastos, e outros, mas, tendo havido alguns ensaios dum drama, a certa altura, tudo debandou.

Não sucedeu assim em Braga, durante o tempo que à frente do Liceu esteve como reitor o Dr. Luís da Costa Pereira, havendo récitas esplêndidas no teatro de S. Geraldo, dadas por estudantes, em algumas das quais entravam O Visconde de Pindela e Bernardo Pindela (hoje Conde de Arnoso) e até senhoras da primeira sociedade bracarense.

O produto das mesmas era aplicado aos festejos do 1.º de Dezembro.

Por que não fazem os nossos amigos Gaspar Roriz e Jerónimo Sampaio um tour de force nesse sentido? Competência não lhes falta."

(O Comércio de Guimarães, Dezembro de 1906)

quarta-feira, 31 de outubro de 2007

O 1 de Novembro nas Nicolinas

A 1 de Novembro celebra-se o dia de Todos os Santos. É costume popular antecipar-se aquilo que deveria ocorrer a 2 de Novembro (o dia de Fiéis Defuntos), a ida ao cemitério prestar culto aos antepassados e queridos defuntos. A esta celebração não são alheios os estudantes vimaranenses.

É costume antigo deslocar-se a Comissão de Festas Nicolinas neste dia, em luto ao cemitério, para prestar homenagem aos Velhos já falecidos. Saindo manhã cedo do centro da cidade (normalmente da Torre dos Almadas), dirigem-se os estudantes à capela de S. Nicolau para "cumprimentar o Santo". À frente, levando o estandarte, parte o Primeiro Vogal da Academia, logo seguido do Presidente e restante Comissão por ordem hierárquica. Seguem em fila, com o traje em luto, silenciosos, pelas ruas da cidade em direcção à Atouguia. A acompanhá-los poderão estar outros estudantes, novos ou antigos, que com eles pretendam prestar homenagem.

Ao passarem pelas vendedoras no mercado (no velho), fazem os estudantes peditório de ramos de flores e velas. Carregados, seguem no mesmo cortejo até ao cemitério, onde se dirigem primeiramente à capela. De lá, visitam as campas de alguns Velhos notáveis. Entre outros, visitam-se as de Gomes Alves, Hélder Rocha, Jerónimo Sampaio, Emídio Guerreiro, Senhora Aninhas, entre muitas outras.

Terminada esta cerimónia, é tempo de ir tirar a barriga de misérias que o pequeno-almoço já foi há muito, para quem o tomou.

Há quem considere que a actividade propriamente dita da Comissão principia neste dia. De facto, é este o dia em que os estudantes pela primeira vez saem à rua para se mostrarem à cidade, apesar de ser costume irem avançados os peditórios a esta data. No entanto, não me parece a mim, fiel e defunto, que este seja dia de grandes folguedos, pelo que as festas, ou o "aquecimento" para as mesmas, começa daí a uns dias, com as Moinas. O dia exige sobriedade e respeito.


Frei Clemente de Santa Maria das Dores

segunda-feira, 29 de outubro de 2007

Festejos dos Estudantes da aula de latim de Guimarães denominados de S. Nicolau (II)

Continuámos a transcrever um testemunho publicado no jornal O Comércio de Guimarães, sobre as festas do estudantes a S. Nicolau na segunda metade do século XIX:

"Copiaremos dum jornal a origem deste costume antiquíssimos.

"No último quartel, talvez, do século passado, um cónego da I. e R. Colegiada legou aos rapazes coreiros em seu testamento uma renda, constando de certa medida de castanhas e maçãs, imposta numa sua quinta de Santo Estêvão de Urgezes.

Os coreiros iam ali todos os anos, no dia de S. Nicolau, recebê-la, vindo depois a cavalo e em hábitos de coro oferecê-la às pessoas mais gradas da terra.

Esta velha usança, depois de renhidas demandas e peripécias, passou para os estudantes de latim em Guimarães, que deram ao caso a aparência duma grande festa com cavalhadas, com mascarados, danças, pregão em verso, algum dos quais se deve à pena inspirada do mavioso poeta e distinto médico João Evangelista, exibições, serenatas, espectáculos teatrais, tudo anunciado pela bandeira escolástica, pomposa e solenemente içada na noite do dia 29 de Novembro no Campo do Toural, tendo lugar o resto e o mais ruidoso da festa nos dias 5 e 6 de Dezembro.

Era isto um privilégio tão exclusivo dos estudantes vimaranenses, que quem se atrevesse a violá-lo, embora pertencesse à classe mais distinta, era irremediavelmente mergulhado no tanque do antigo Chafariz do Toural.

No próximo número ofereceremos aos nossos amáveis leitores mais alguns apontamentos sobre estes festejos."

(O Comércio de Guimarães, Dezembro de 1906)
[continua]

domingo, 28 de outubro de 2007

As Nicolinas e a Comunicação Social

Como todos os vimaranenses sabem as Nicolinas são festividades de carácter único. A unicidade destes festejos começa na sua antiguidade e acaba no número de pessoas que acompanham as festividades. Podemos então dizer que quer a nível nacional quer a nível ibérico as Nicolinas seriam merecedoras de um natural destaque nos meios de comunicação social. Contudo a nossa comunicação social não entende isto, ou se entende não o demonstra.

Durante a época do Verão é comum vermos a nossa comunicação social a dar destaque a todas as procissões e romarias nacionais. Podemos por a hipótese de este destaque dado às romarias de Verão existir pelo simples facto de, nessa época, se viver a “silly season” mas talvez esta justificação não seja, por si só, válida. No dia 7 de Julho a imprensa portuguesa começa a dar destaque as espanholas Festas de San Fermin e continua, na última quarta-feira de Agosto, a sua senda por terras de Castela dando destaque à sexagenária Tomatina…

O “porquê” do desprezo que a comunicação social portuguesa dá às Nicolinas é, basicamente, incompreensível. Podíamos falar das 50000 pessoas da Tomatina mas temos como contraponto um número seguramente maior de participantes no Cortejo do Pinheiro, podíamos falar na antiguidade das Festas de San Fermin mas as Nicolinas não lhe ficam atrás…Porque será então que as nossas Festas ficam atrás das outras e são quase “escondidas” dos portugueses? Será pela sua antiguidade? Pelo seu carácter único? Pelo seu número de participantes?

Não sabemos…Mas aceitamos sugestões.


Frei Bento do Amor Divino Pelo Pecado Original

Festejos dos Estudantes da aula de latim de Guimarães denominados de S. Nicolau

S. Nicolau. Gravura da colecção da Sociedade Martins Sarmento.

Aqui se transcreve um testemunho publicado no jornal O Comércio de Guimarães, sobre as festas do estudantes a S. Nicolau na segunda metade do século XIX:

De tempos imemoráveis os estudantes desta cidade faziam uma função, que principiava por levantar-se um enorme pinheiro, no meio do campo do Toural, tendo uma bandeira no cimo com o quadro da Minerva.

Esse pinheiro dava de ordinário entrada pelas 7 ou 8 horas da noite, conduzidos dos arrabaldes da cidade, por seis ou sete juntas de bois, com muitos archotes e uma música, tocando o hino escolástico, indo na frente muitos estudantes, tocando tambores e zabumbas.

Até ao dia 6 de Dezembro (dia de S. Nicolau) desde o dia 30 de Novembro, ao romper da aurora, ia a caminho de Nossa Senhora da Conceição, às novenas, uma grande parte desses estudantes, também com tambores e Zabumbas.

No dia 5 de Dezembro, pela uma da madrugada, saía uma música, indo na frente os estudantes, que iam às posses, isto é, a certas casas, em que os recebiam dando-lhes umas uvas (rua de S. Dâmaso), outras figos e aguardente (casa do professor Venâncio e António Pereira da Silva) e outros doce e vinho tinto.

Muitas dessas pessoas que obsequiavam os estudantes já faleceram.

Na Cruz de Pedra, os oleiros davam o mato para o magusto que se fazia no largo do Toural, distribuindo-se as castanhas e o vinho da Comissão pelos músicos e homens que traziam o mato, sendo defeso aos estudantes partilhar deste magusto, pois, como diziam os Padres Abreu e Vinhós, quando algum lhe aparecia, o magusto desta noite não era dos estudantes propriamente dito. O destes era em Santo Estêvão de Urgezes, na manhã do dia 6.

Assim se passava a noite do dia 4 e madrugada do dia 5 em continua algazarra e alegria, havendo sempre mais ou menos a sua desordem, que terminava sempre em coisa alguma.

Pelas duas horas da tarde do dia 5 de Dezembro saía o bando escolástico, com mascarados tocando tambores e zabumbas, organizado com diferentes carros alegóricos, com um estudante vestido de Guimarães, outro de Minerva, etc, etc.

Então, um estudante, a quem era expressamente vedado assistir ao magusto da noitada, recitava o bando em verso, feito sempre por um dos melhores poetas desta cidade, distribuindo-o um outro estudante pelo povo, devidamente impresso, em que anunciava as danças, cavalhadas e exibições do dia 6, declarando que aquela festa era só exclusiva dos estudantes, e ai do que se metesse no festejo, não pertencendo à classe!...

Um ano, um indivíduo de alcunha o "Maneta", ousou entrar mascarado nela. Os estudantes, quando o reconheceram, bateram-lhe tanto, que lhe quebraram um braço, julgando que o deixaram morto.

Outros pagaram com um banho no chafariz do Toural o atrevimento de tomarem parte nestes festejos...

Posto o bando na rua, a primeira casa onde se recitava, era a do administrador, como sinal de respeito e permissão para ele prosseguir, e assim corria as ruas da cidade até às 10 horas da noite.

No dia 6, pelo meio-dia, vinham os estudantes da freguesia de Santo Estêvão, para onde tinham ido, uns a cavalo, outros de carro, para tomarem conta da renda.

Todos ali, numa eira completamente varrida pelo estudante mais novo, recebiam da Comissão castanhas, vinho e maçãs, pois era este o verdadeiro magusto dos estudantes.

No dia 6, era depois do magusto, em Santo Estêvão, a distribuição das maçãs e castanhas às damas de Guimarães, vindo os estudantes a cavalo, trazendo lanças enfeitadas com laços de seda, estes os mais pequenos, e a Comissão e outros estudantes mais taludos, em carros. Esta distribuição fazia-se pelo meio-dia, e terminava às duas horas da tarde.

Logo que chegavam ao Toural, a primeira coisa que faziam era dar meia volta em redor do pinheiro, como homenagem à deusa da Ciência.

Em seguida, dispersavam, indo todos ou quase todos ao Convento de Santa Clara, hoje seminário, levar as maçãs às freiras, que as recebiam, fazendo troca com doces que lhes enviavam das suas celas em cestinhas presas por fitas de cor.

Às duas horas da tarde saíam as danças: uma, a dos pequenos estudantes, outra, a dos grandes.

Muitos anos foi o Fatinho (uma santa criatura) o seu ensaiador.

Que paciência ele não tinha para isto!

Em antes uns oito dias ia ele e o Padre Vinhós ou o Padre Abreu à aula de latim, pedir ao Venâncio dispensa do estudo para as festas.

Mal entravam, isso sucedia quase sempre de tarde, todos os estudantes principiavam a fazer-lhes acenos, para que fossem enérgicos no pedido.

Venâncio, porém, imperturbável e frio, da sua cadeira, não prestava a menor atenção aos embaixadores.

Afinal, quando estes eram próximos da magistral cadeira, perguntava-lhes: que temos?

- Eles, a sorrir respondiam, pedem-se férias e já hoje se tem de fazer a escolha dos rapazes para as danças.

- Ainda é muito cedo, continue dizendo a lição, snr....

-Nada, nada. O feriado é hoje preciso, porque se têm de escolher roupas, etc.

- Isto há-de acabar um dia, dizia o Venâncio. Os rapazes precisam de estudar.

Vá por este ano.

Tudo debandava para as varandas dos claustros de S. Francisco, fazendo uma algazarra medonha.

Vinhós, Padre Abreu e Fatinhos talhavam, e o S. Carlos, que era o director das obras do hospital, ou o pai dos snrs. Abreus, faziam a polícia de sarrafo em punho.

Berravam, ameaçavam, mas riam-se ao mesmo tempo.

Que saudades não sentimos por essa época de verdadeira e única felicidade!

Ser estudante de latim nesse tempo, parece que constituía a prerrogativa mais nobre dos rapazes de Guimarães.

Hoje, que há verdadeiros estudantes, e verdadeiros académicos, pois que passam por provas de exames, que os habilitam a um dia ocuparem na sociedade cargos importantes, vê-se ainda muita indiferença, senão até frieza.

Pois estes festejos, tradicionais e próprios de Guimarães, têm toda a razão de ser.

Diferentemente, sim, é certo, mas Coimbra, Lisboa e Porto, também um dia no ano presenciam as expansões académicas.

(O Comércio de Guimarães, Dezembro de 1906)
[continua]

sexta-feira, 26 de outubro de 2007

Martins de Aldão

São hoje as cerimónias fúnebres de um Homem a quem muito devem as Nicolinas. João Maria Rodrigues Martins da Costa Aldão, há mais anos do que aqueles que lembramos, oferece a árvore para o Pinheiro. Uma data triste para todos os Nicolinos.

Hoje, a Academia está de luto.

quarta-feira, 24 de outubro de 2007

Filinto Elísio

Vemos nos Estudantes em geral, em especial (hoje em dia) nos do ensino superior, uma curiosa Tradição: a do brinde. Sempre que a ocasião o propicia (ou seja, quando a vontade assim o ditar), fazem-no, entoando uns cânticos.
Ora, nisto não são os Nicolinos excepção; também eles alimentam este hábito. Embora o façam – claro! – de uma forma diferente dos estudantes de Coimbra (que “pegaram” o seu costume a outros). Quando decidem fazer um brinde, fazem-no evocando um dos maiores poetas portugueses do século XVIII, que ficou para a História conhecido por Filinto Elísio.

Reza assim o brinde:

Filinto Elísio da velha França
Enchei-me a pança deste licor
Que pena eu tenho que as minhas tripas
Já não suportem mais cem mil pipas

Ora, quem foi afinal Filinto Elísio, para ser evocado e lembrado pelos Estudantes vimaranenses?

Diz-nos Natália Correia, na sua Antologia de Poesia Portuguesa Erótica e Satírica (Antígona e Frenesi, Lisboa, 1999) o seguinte:

«Francisco Manuel do Nascimento, nasceu em Lisboa em 1734. Tomou ordens sagradas e foi professor de latinidade de D. Leonor de Almeida, depois marquesa de Alorna, ao tempo recolhida no Convento de Chelas por ordem do marquês de Pombal, dela recebendo o pseudónimo arcádico por que ficou a ser conhecido, e que trocou pelo nome de Niceno, adoptado quando da sua ligação com o Grupo da Ribeira das Naus, adversário da Arcádia Lusitana.
Imbuído do iluminismo francês, a queda de Pombal forçou-o a procurar exílio em França para fugir à Inquisição, em resultado de uma denúncia apresentada pelo padre José Manuel de Leiva, em 1758, mas em cuja origem estaria o marquês de Alorna, a quem repugnava a intimidade do poeta com as filhas D. Maria (Daphne) e D. Leonor (Alcipe).
Em Paris, onde morreu em 1819 e editou as suas Obras Completas, defrontou-se com a miséria e a doença, inspirando o seu infortúnio a Lamartine um poema em que o chama “divino Manuel”.
Defensor da poética horaciana, o postulado de um rigor formalista que faz dele o expoente do estilo arcádico, suscitou a escola filintista em oposição à fluidez palpitante de elmanismo que rompia a via láctea do Romantismo. Não obstante esta divergência estética, Bocage rende-se à preponderância que o Árcade exerceu nos poetas da época, orgulhando-se, num soneto, de “Filinto, o grão cantor” ter prezado os seus versos.
Dominado pela paixão da pureza linguística, satirizou os introdutores de estrangeirismos numa composição intitulada “O Debique”. Também se não furtou aos apelos da poesia libertina, observando assim a tradição clássica que lhe vigiava o engenho. (…)»

Camilo Castelo Branco escreveu-lhe também uma biografia, que aqui também reproduzimos (conforme constante no vol. XIII das Obras Completas de Camilo Castelo Branco, Lello & Irmão Editores, Porto 1991, pp. 645-647).

«O padre Francisco Manuel do Nascimento, a quem a marquesa de Alorna, dulcificando-lhe a crisma poética, chamava o seu Filinto, exclamava em Paris:

Feliz quem rumas de calções possui!
(Calções, digo, nem rotos, nem surados).
O santo Job, chagado na esterqueira,
Calções não precisava
Mas eu… Não digo mais. –Passem dois dias,
Não saio. – E, se eu sair, na rua, a gente
Me corre às apupadas, e os garotos
Me enxovalham com lama.
Dois calções, cujas eras me não lembram,
Sobrepondo fundilhos a fundilhos,
Não sofrem ponto sem rasgar-se o pano,
Que lhes clamou concerto.
Feliz quem tem calções!...

Ele tinha-os rotos, surrados e incorrigíveis, o grande poeta. Diz que tiritava. Deus, contra o seu costume, dera-lhe mais frio que roupa. A Inquisição de Lisboa quisera aquecê-lo deveras; e ele fugira para o Havre, com um gigo de laranjas às costas como qualquer mariola, podendo figurar no Rossio com a majestade fúnebre de Savonarola e João de Leyde.
Muita gente mais inimiga da Inquisição do que instruída na sua história, e mais adversa ao clero que lida nos processos do tribunal da fé, persuade-se que o Santo Ofício não queimava padres, nem frades, nem freiras, nem cónegos, nem fidalgos. Cuidam que as suas achas alcatroadas só se acendia para carbonizar judeus e judias. Fazem esta injustiça à mais recta e imparcial das instituições humanas.
Eu, no meu escasso arquivo de processos da Inquisição, possuo mais de seis dúzias de sentenças que condenam padres a degredo, a açoutes, a galés e ao fogo.
Uns eram priores, outros missionários da Companhia de Jesus, alguns de mosteiros reformadíssimos, e muitos simples clérigos da Ordem de S. Pedro – patrono que é de crer lhes abrisse as portas do Céu para se vingar da Ordem de S. Domingos.
O padre Francisco Manuel era desta Ordem; mas, em vez de recorrer a S. Pedro, valeu-se do negociante Verdier que lhe deu escape, quando os ebirros o farejavam, e lhe negociou passagem a bordo de um navio holandês.
Este padre esquivou-se à fama que lhe cingiria a fronte com imorredoira auréola, se se deixasse queimar como o frade capucho Diogo da Assunção, de Ponte de Lima (1603), que os hebreus adoram no martirológio dos seus santos; não invejaria a constância luterana do padre jesuíta Mateus Francisco, queimado em Goa, em 1664; morreria, saudando a ideia nova como o padre José de Sequeira, queimado em 1745, em Lisboa; enfim, na galeria dos padres dados ao Diabo e à carne, o seu nome estaria entre o do confessor da Igreja dos Mártires, Francisco Henriques, e o do padre Bartolomeu de Góis, cura de S. Paulo, queimado no Rossio em 1621.
Não, senhores: o padre Francisco Manuel do Nascimento antes quis andar-se de Paris para Amsterdão e de Amsterdão para Paris, a tremer de frio, a mendigar ovos-moles a toda a gente, e a gemer em versos espinhosos como dorso de javali arranhado:

Feliz quem tem calções!

E assim arrastou, escura, rota e faminta, uma vida de oitenta e cinco anos, premiada entre dois terrores e dois ódios implacáveis: ao galicismo e à Inquisição.
Era tanto o seu amor à língua pátria que refloriu todas as obscenidades lusitanas da Rua da Madragoa nos seus Contos. Coçava a epiderme calosa dos setenta anos com a escumalha refugada das forjas dos dicionaristas. Os dominicanos bem sabiam porque desejavam queimá-lo. Eles pressagiavam que, transcorrido um século, viria, em seguida aos gafanhotos do Alentejo, uma revoada de rouxinóis, que aprenderam a trilar os seus cantares libertinos nas frases do clássico Filinto, de quem rejeitaram as graças portuguesas, sendo certo que não há pensamento de torpeza moderna que desquadre no feitio que lhe dava o clássico.
Lamartine cantou-o na Meditação XV, e, no comentário à meditação, dá-nos a novidade de que o padre tinha consigo uma bonita freira em Paris, quando orçava pelos oitenta anos.
Une jeune reiligeuse, d’une beauté touchante, et d’un dévouement absolu, s’était attachée d’enthousiasme à l’exil et à la misère du poète.
Isto é uma calúnia. Pobre velho, a deitar freira, não podendo deitar calções!
Lamartine, como se estivesse em hora de patarata, com aqueles ares de poseur muito seus, acrescenta que Filinto Elísio lhe ensinara a língua portuguesa.
Ora é de notar que Francisco Manuel, trasladando nas suas obras a ode de Lamartine, trata com desdém o poeta para ele desconhecido, e mostra-se nada lisonjeado com os encarecidos gabos dum sujeito que ainda não tinha nome.
Certo, não procederia assim se Lamartine fosse seu discípulo.»

É então este o homem que os Nicolinos cantam: um padre pouco celibatário, por certo também pouco dado à sobriedade que a vida sacerdotal lhe exigiria (em teoria), um fugido, um herege. Certamente tudo isto se enquadra o espírito das também pouco religiosas Festas Nicolinas, e na saudável boémia dos Estudantes, que buscam no néctar brindado o estro do Filinto!



Frei Clemente de Santa Maria das Dores

segunda-feira, 22 de outubro de 2007

APRESENTAÇÃO

As Nicolinas são uma das tradições académicas mais antigas de Portugal. Guimarães, Berço da Nacionalidade, é também o Berço das seculares Festas de São Nicolau.

Sendo as origens das Festas bastante antigas, talvez remontem ao século XV, é certo que desde 1664, altura em que os estudantes de Guimarães criaram a Capela de São Nicolau, até aos dias de hoje as Festas de São Nicolau têm marcado a vida e da história desta cidade.

Atravessando séculos de alegrias, de tristezas, de excomunhões, de folguedos e de muitas coisas mais as Festas Nicolinas foram sobrevivendo, mostrando a todos que a Tradição não morre.

É com o intuito de aprofundar o conhecimento sobre as Festas de São Nicolau, de as estudar, de as exaltar e de as debater que surge este blog.