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quinta-feira, 6 de novembro de 2008

Novenas da Conceição

O erudito Abade de Tagilde no seu livro Guimarães e Santa Maria, dá-nos cópia de uma escritura de 1513, pela qual os padres coreiros da Colegiada tomaram o encargo de celebrar um acto religioso nesta ermida, instituído por um cónego. Mais tarde, surge a instituição de uma irmandade a N. Sra. da Conceição que, por outro documento de 1738, se vê contar no seu seio alguns cónegos e estudantes.
Extraio de uma escritura:

«Custodio Vieira, estudante da Caldeiroa, não deu esmola, por quanto é deligente em tocar o realego.»

Tocava este estudante um realejo em acto de culto que não se menciona, mas se deixa adivinhar tratar-se de novenas à Senhora da Conceição.
Por estas efemérides históricas e ainda porque a ermida da Conceição estava na jurisdição da Colegiada, é de supor que os «meninos de coro» da mesma comunidade ali acompanhassem os padres coreiros como seus coadjuvantes.
Ora, estes «meninos de coro» que pertenciam ao foro académico pelo facto de cursarem na mesma Colegiada as aulas de gramática latina, com os estudantes acamaradavam, não só neste acto de culto como em toda a função Nicolina.


in A. L. de Carvalho,
O "S. Nicolau". Tradições Académicas de Guimarães.,
Liceu Martins Sarmento, 1943.

segunda-feira, 3 de novembro de 2008

Da origem das Festas "Nicolinas" II

Continuação deste artigo.

Tradições escolásticas do culto «Nicolino» em Coimbra.

- S. Nicolau, Patrono dos estudantes de Guimarães.

Gravura da Universidade de Coimbra.

S. Nicolau, Bispo, segundo o agiológio, ressuscitara três estudantes assassinados por um estalajadeiro em terras de França. Neste prodígio de milagre está o triunfo da eleição do Santo à excelsa categoria de Patrono dos estudantes, destacando-se neste reconhecimento, primeiro que Guimarães, a Universidade de Coimbra.

De facto, compulsando os estatutos deste primeiro estabelecimento de ensino, relativos a 1589, neles se consagra o dia 6 de Dezembro, a S. Nicolau.

A exteriorização deste culto desdobrava-se em procissão, espectáculos, danças, folias.

Camões, cuja vida escolar em Coimbra decorre de 1539 a 1542 - segundo Teófilo Braga -, dá-nos conta da existência de festas e exibições teatrais em honra de S. Nicolau, no seu auto - «El-rei Seleuco».

Diz nele certo personagem: «Tu fazes já melhores argumentos que moços de estudo por dia de S. Nicolau.»

Um destes argumentos teatrais - acrescenta o autor da «História da Literatura Portuguesa» - constituía o tema de um Mistério Sacro onde se representava o milagre dos três estudantes ressuscitados por S. Nicolau, e o arranjo coreográfico de uma dança feita à glória do mesmo Santo.

Afonso Valente, troveiro, assim diz a Garcia de Resende:

«De traz de San Nicolau,
em alto graao,
vos vi eu numa alta dança,
com essa pança mui atento...»

Por tudo isto se constata: que já na primeira metade do século XVI era festejado S. Nicolau na Universidade de COimbra, como seu Patrono escolar. As representações hieráticas e as danças cénicas, de sentido dramático, constituíam uma parte do seu culto externo.

O cerimonial da procissão deixa-nos antever a sua imponência: à frente, para abrir o cortejo e afastar o povoleu, iria o meirinho com os seus archeiros armados de alabardas; depois os charmeleiros, tangendo seus instrumentos clangorosos; agora, seguia-se o corpo docente e doutoral, com suas vestes roçagantes e insígnias; a devida distância, viam-se os bedéis das várias Faculdades com suas maças de prata; em lugar de honra, como a sua alta prerrogativa ordenava, o Reitor; finalmente, os colégios dos religiosos, dos seculares, e os estudantes. Esta ordem hierárquica, este luzimento, esta pompa, não podiam deixar de exercer na imaginação dos escolares provincianos um deslumbre e desejos de imitação; - nomeadamente em Guimarães onde a nobreza tinha vínculos fortes, e, à sombra deles, alimentava com fausto os seus pergaminhos.


in A. L. de Carvalho,
O "S. Nicolau". Tradições Académicas de Guimarães.,
Liceu Martins Sarmento, 1943.

domingo, 2 de novembro de 2008

Da origem das Festas "Nicolinas"

Tradições escolásticas do culto «Nicolino» em Coimbra.
- S. Nicolau, Patrono dos estudantes de Guimarães.

O Mosteiro de Santa Marinha da Costa, em fotografia da Sociedade Martins Sarmento.

Dois centros culturais se ergueram no Passado como alfobres geradores de toda a ensinança pública em Guimarães: -a Colegiada de Nossa Senhora da Oliveira e o Mosteiro dos Frades Jerónimos da Costa.

A primeira destas cátedras foi estatuída em 1291 por el-rei D. Dinis, e a segunda em 1541 por el-rei D. João III.

QUanto ao ensino da Colegiada, suas disciplinas eram: -gramática latina, cantochão, moral. Seus alunos obrigados, eram os «meninos do coro». Dos outros, em curso livre, nada se sabe.
O ensino do Mosteiro da Costa constava de latim, filosofia, teologia, humanidades. Além dos seus alunos em noviciado, havia os estudantes leigos. Fr. Diogo de Murça, seu Director, aludindo ao número dos alunos, dizia em carta dirigida a el-rei:

«... leigos avera nesta escola de cinquõeta ate sessenta.»

A-par destas cátedras havia o ensino, em regime de escola pública, nos conventos de S. Francisco e S. Domingos, onde se lia gramática e «casos de consciência».

Tal o panorama da nossa vida escolar, no ensino público, até ao século XVI. Depois, é o declínio com o encerramento da Universidade da Costa.

Muitos filhos de algo e das casas morganatas dirigem-se aos centros universitários de Coimbra e Salamanca. Outros, menos providos de recursos, por aqui se ficaram frequentando as aulas dos padres mestres, com escala pelos cursos teológicos bracarenses.

Pelo ano de 1594 é criada entre nós uma corporação religiosa denominada Irmandade de N. Sra. da Consolação, conhecida também por - Irmandade dos Estudantes Pobres.

Esta irmandade do século XVI não era mais que um culto à Virgem, -embora já traduza um pensamento de unidade corporativa, e nos traga à lembrança a existência de estudantes de épocas remotas. Documentos medievais relativos aos anos de 1328, 1332, 1333, 1335 e 1349 nos deixam visionar perfeitamente a silhoeta acarvoada do primitivo escolar de capa e batina, calção e sapato de fivela, pendendo-lhe sobre os ombros uma longa guedelha.

Com efeito, certos nomes que nos aparecem em envelhecidos pergaminhos com a rúbrica de escolares, e onde outorgam em escrituras públicas, dão-nos a certeza de que a vida académica era longa, atingia o período da barba, passando muitas vezes para além da mocidade.

Ora, foram estes escolares, esta fauna de estudantes solteirões, quem fundou entre nós, no século XVII, a Irmandade de S. Nicolau.


in A. L. de Carvalho,
O "S. Nicolau". Tradições Académicas de Guimarães.
,
Liceu Martins Sarmento, 1943.

sábado, 1 de novembro de 2008

Notícia histórica do Santo e da festa

S. Nicolau nasceu em Patara, na Lícia (Ásia Menor), no séc. III. Morreu em santidade com idade desconhecida a 6 de Dezembro da ano de 327. Foi bispo de Mira, capital da Lícia.

Durante o império de Licínio foi perseguido e desterrado, mas vencido aquele imperador por Constantino Magno, no ano de 314, e sendo dada paz à Igreja, voltou à sua diocese. Assistiu ao Concilio de Niceia onde foi condenada a heresia de Ario, da igreja de Alexandria.

Nicolau herdou de seus pais uma riquíssima fortuna que distribuiu toda pelos pobres.

Na Itália é patrono de marinheiros porque fazia o milagre de amainar as tempestades. Refere S. Boaventura que, em dada ocasião, Nicolau ressuscitou dois estudantes, os quais tinham sido assassinados numa briga. Será deste facto da sua vida que os estudantes de Guimarães o escolheram para seu protector? Sabe-se apenas que a Irmandade de S. Nicolau foi instituída há 229 anos, no dia 6 de Dezembro de 1691, na Colegiada de N. S.ª da Oliveira de Guimarães. Rezam os estatutos da mesma que só a ela podem pertencer os sacerdotes, beneficiados, letrados e e estudantes “e se algum estudante, dispois de ser Irmão, exercitar officio mecanico, a Meza que servir o riscará sem couza mais algua ser necessária”.

Cada um pagava, ao ser admitido na irmandade, 480 réis, de esmola, excepto dez irmãos leigos, que tinham entrada gratuita, e poderiam não ser sacerdotes, nem letrados, nem estudantes, mas desempenhavam o mister inferior de serventes.

O traje usado pelos Irmãos era a casaca e fita branca ao pescoço, com a respectiva medalha do Santo.

A origem da festa anual ao S. Nicolau está certamente na data da fundação da Irmandade 6 de Dezembro) e data da morte do Santo. A entrada do “pinheiro” explica-se pelo antigo uso nacional de anunciar qualquer festa erguendo um alto mastro encimado por uma bandeira.

Dizem os antigos que as “posses”, “magusto”, “cortejo das maçãs” têm o seu início no facto dos 10 irmãos leigos, atrás referidos, perceberem por ocasião da festa um antigo foro da irmandade, que constava de maçãs e castanhas. E que depois de recebido o foro, percorriam as casas da cidade e vendiam apenas as maçãs para, com o produto da venda, realizarem um magusto onde assavam as castanhas do mesmo foro.

Sobre a origem do “pregão” há um facto que talvez se possa ligar com o mesmo, que é o da leitura dos estatutos da Irmandade feito anualmente à nova Mesa no dia 5 de Dezembro e juramento solene prestado na mesma data pelos mesários eleitos; ou então a origem que lhe atribui João de Meira (“Rev. de Guimarães” - n.os 3 e 4 de 1905, pág. 161) de ser o bando uma espécie de programa da festa declamado nas ruas e praças da vila por um dos académicos festeiros.

No respeitante às “Danças” tratava-se dum folguedo com que as festas eram abrilhantadas e das quais se colhiam proventos, para cobrir as despesas feitas. No livro de Termos da Irmandade lê-se: “querendo alguém que se lhe fação comedias ou danças, e falando nisso a algum oficial da Mesa, esse o fará saber aos mais, etc...”

Nada mais se pode precisar com segurança sobre as origens desta festa tão característica, realizada anualmente pelos estudantes de Guimarães.

Na biblioteca da S. Martins Sarmento existe uma preciosa colecção de Bandos manuscritos desde 1827, oferecidos pelo falecido abade de Tagilde.

In Os Velhos, 1895-1920, Guimarães, 1920, pág. 2.

sábado, 8 de dezembro de 2007

Caiu a monarquia, tombou o pinheiro

A queda da monarquia e a instauração da República em Portugal levou a que as Nicolinas, vistas como um anacronismo, fossem objecto de alguma contestação (passageira), em parte também resultante de um acidente com o pinheiro, que tombou, quando tratavam de o erguer, matando um rapaz de 13 anos. Alguns dias depois, publicava-se no jornal Alvorada o seguinte texto, assinado por um ex-estudante:


À Academia Vimaranense

(Em especial à Comissão das chamadas “Festas de S. Nicolau”)


Briosos rapazes:

Um lamentável desastre nas vossas festas, no qual não tendes a culpa, é certo, mas de que estais, sem duvida, pesarosos como se a tivésseis, deve induzir vos a pensar no extermínio dessa coisa, que nenhum sentido faz, das Festas a S. Nicolau.

Raciocinando a sós e a frio, vós que podereis ser cábulas mas não sois estúpidos, compreendereis que tais Festas vão-se aguentando por um tour de force e que só as anima e vitaliza o vosso entusiasmo juvenil ou as olha boquiaberto e saudoso algum velhote, veneranda relíquia do tempo em que elas eram, pelo menos, uma exibição de costumes. Tais festas, porem, nem comemoram uma data importante da nossa história, nem consagram uma benemerência social, nem visam a acendrar o sentimento patriótico, nem sequer têm o mérito duma folga higiénica ou divertimento inofensivo.

Pelo contrario. Sob este ponto de vista, ficam muito aquém duma corrida de garranos ou da morte do galo. Servem apenas para catarrais e pneumonias, para alentar tuberculoses, para desassossego e perturbação do público, para partidas e pirraças que não esquecem, para desastres, enfim, como esse que sabemos. E depois hão de ser-vos sempre tolhidas, sempre aguadas, as tais festas, por mais exibicionistas e dançarinas que as planeeis. Sim, bem compreendeis, dias de festança e aulas a correr é uma alegria chocha, é uma alegria a meio pau!

Dias de arruado e chuva a potes de mandar ao diabo a patuscada!

É por isso que me apraz vir dizer-vos: Acabai com isso, que faz lembrar os batuques dos selvagens, que parece um trecho de sertão africano deslocado para um meio civilizado.

Desisti desse mal simulado Carnaval que tem sido um protesto arrastando-se com o rótulo pomposo de Festas a S. Nicolau.

Acabai com isso! Quereis associar o vosso nome a uma obra linda? Metei ombros à fundação duma Sociedade Académico – Filantrópica para auxiliar os vossos camaradas pobres. Pegai já nesse dinheiro que juntastes ou juntardes e seja ele o fulcro da nova empresa.

Depois fazei quetes, promovei saraus, dai espectáculos para obterdes fundos cada vez maiores. Adestrai-vos para o palco, para a recitação, para o discurso, para a música. Desenvolvereis assim aptidões latentes e, ajudando o camarada pobre, começareis a ser desde já um alto valor social. Isto sim, que é belo, que é altruísta, que é generoso, que é nobre e próprio de rapazes briosos e inteligentes! O que por aí exibis com o peguilho de Festas a S. Nicolau é uma pavorosa coisa, trabalhosa e inútil, que o vosso bom senso repele decerto, mas em que vos meteis porque já os outros se meteram e vós não quereis ficar atrás.

Não vos acanheis em repudiar essa herança.

Não perfilheis esse passado.

É uma glória reformar para bem.

Buscai essa glória, abolindo anacronismo e substituindo-lhe uma coisa moderna e linda — Trabalhar pela Filantrópica.

Tendes aí o bom Padre Roriz, todo entusiasta pelos progressos da sua terra e pelas generosas tentativas. Ele que, segundo é notório, vive agora arredado das lides políticas e jornalísticas, não se furtará de certo a cooperar convosco no lançamento e consolidação duma Sociedade Filantrópica Vimaranense com o fim de subsidiar estudantes pobres.

Buscai o seu auxílio, a sua direcção, o seu conselho. Organizai-vos em Grupo Dramático-Musical que representando, recitando, discursando, musiqueando quebre de onde a onde, a monotonia do viver vimaranense e seja como que o ganha-pão da incipiente sociedade.

Fazei convergir para Ela as energias, os entusiasmos, os sacrifícios que malbaratais ingloriamente e perigosamente do pinheiro, no zabumba, nas roubalheiras e estúrdias ao S. Nicolau.

Fosse eu estudante, que não descansaria enquanto não visse realizada a Sociedade Filantrópica Académica e canalizadas para ela as simpatias que os escolares parecem votar às absurdas Festas Nicolinas.

Guimarães 3-12-1910.

Um ex-estudante.

sexta-feira, 23 de novembro de 2007

Das origens remotas das festas a S. Nicolau

A Colegiada da Oliveira. Gravura pescada na Casa de Sarmento

“Muitos defendem que as festas em honra de S. Nicolau terão tido origem no colégio que existiu no século XVI no Mosteiro de Santa Marinha, na Costa. Novamente, sou céptico em relação a essa hipótese.”

Frei Clemente de Santa Maria das Dores

Tem razão Frei Clemente em ser cauto. Estou em crer que as festas a S. Nicolau devem ir um pouco mais lá para trás do século XVI. Na Idade Média europeia, S. Nicolau, Bispo de Myra, era objecto de grande culto, com celebrações de que têm sido salientadas as afinidades às velhas saturnais romanas.

Por essa Europa fora, S. Nicolau era celebrado pelos estudantes e meninos do coro das escolas das catedrais, em festividades muito populares, quase sempre marcadas por folias e desmandos que, pela sua natureza, não raro eram objecto de proibições decretadas pela hierarquia da Igreja. Em Espanha, onde não faltam testemunhos das festas do obispillo de San Nicolás, estes festejos têm grande tradição. Em muitos lugares, sobreviveram até aos tempos que correm.

O obispillo era um moço do coro (geralmente, o mais jovem dos cantores da catedral) que subia ao coro, com os seus companheiros como acólitos, onde celebrava missas burlescas e imitava chocarreiramente o verdadeiro prelado. Em Burgos, o obispillo envergava vestes episcopais. Montado numa mula e acompanhado pelos outros coreiros, investidos transitoriamente nas dignidades de cónegos da catedral, percorria as ruas da cidade, lançando benzeduras a eito, para divertimento de quantos assistiam a este cerimonial burlesco.

A procura da origem dos festejos a S. Nicolau de Guimarães ainda nos há-de conduzir, como na tradição do obispillo de nuestros hermanos, até às festas de loucos das Idade Média, nas quais se praticava a inversão da realidade, virando-se o Mundo às avessas. Também aqui havia uma igreja equiparada a sé catedral (a Igreja da Colegiada), com moços do coro e estudantes que, no dia de S. Nicolau, escolhiam um de entre eles para se vestir de bispo e andar a cavalo pelas ruas, “causando turvações na vila e muitas indecências”, como notaria o arcebispo D. Veríssimo de Lencastre, em Janeiro de 1675.

Ou seja: não deve ser preciso subir à Costa para escavar as raízes das Nicolinas. Estou certo de que podemos ficar pela Praça Maior.

O Egresso António do Sacrifício Pelo Divino Sustento

Os festejos a S. Nicolau em 1895

Na sexta-feira, cerca das 8 horas da noite, entrou nesta cidade o pinheiro anunciador dos tradicionais festejos escolares dos dias 5 e 6.

A entrada foi real.

O mastro, que mede uma porção de metros, era tirado por 26 juntas de bois, trazendo bandeiras encruzadas em todo o seu comprimento.

Precediam-no numerosos estudantes com zabumbas e tambores, que faziam um barulho ensurdecedor.

Atrás do pinheiro vinha uma banda de música, tocando o antigo hino escolástico, hinos que os velhos ouviam com vivíssima saudade, e não poucos com arroubos de se lançarem nos braços da mocidade estudiosa, zombando por alguns momentos da idade que lhes vai apontando diariamente o seu ocaso.

Guimarães associou-se aos festejos dos estudantes, vendo-se bastantes damas nas janelas e povo nas ruas.

Os estudantes têm ido todas as manhãs às novenas de Nossa Senhora da Conceição.

[O Comércio de Guimarães, n.º 1069, XII ano, 2 de Dezembro de 1895]


Os académicos vimaranenses continuam com os tradicionais festejos de S. Nicolau.

Ontem fizeram o magusto, andando depois as posses.

A alma popular expandiu-se com os rapazes, havendo fraternização geral.

Hoje há o bando, que nos dizem estar primorosamente escrito, ou ele não saísse da brilhante pena do distinto e talentoso advogado dr. Bráulio Caldas.

[O Comércio de Guimarães, n.º 1070, XII ano, 5 de Dezembro de 1895]


Se não atingiram o esplendor de outros tempos, os festejos de S. Nicolau em 1895 tomaram um vulto grandioso, que deixa prever a restauração dessa antiga festa da mocidade estudiosa.

O bando ia excelente, e Sampaio tirou todo o partido dele.

A entrada dos rapazes que vinham ofertar às damas vimaranenses as maçãs foi esplêndida, e não nos recordamos de outra igual.

Na oferta das maçãs gastaram os académicos algumas horas.

Todos eles vestiam muito bem, ostentando alguns costumes de muito gosto.

Houve alguns desarmes, mas não admira em quem não conhece as regras de equitação. Felizmente não houve novidade.

À noite houve cavalhadas e danças, que foram pouco apreciadas; as primeiras, por saírem muito tarde, e, as segundas, por mal se enxergarem.

No acreditado colégio de S. Nicolau houve iluminação, houve iluminação, música e fogo, estando muito povo a apreciar a última noite dos festejos de S. Nicolau, apesar do frio ser intensíssimo.

[O Comércio de Guimarães, n.º 1071, XII ano, 9 de Dezembro de 1895]

quarta-feira, 21 de novembro de 2007

Os festejos a S. Nicolau em 1896

O PINHEIRO

Pelas 8 horas da noite de domingo último, deu entrada nesta cidade o clássico pinheiro, anunciador da festa dos estudantes ao seu patrono S. Nicolau. A rapaziada, alegre e entusiasta, rufando diabolicamente em tambores e zabumbas e empunhando archotes, formava um numeroso cortejo que, visto à distância, produzia um efeito deveras surpreendente.

Primorosamente adornado com bandeiras e arbustos, o pinheiro era tirado por 28 juntas de bois e acompanhado por uma banda de música, seguindo vagarosamente para o campo de D. Afonso Henriques, onde foi levantado no dia seguinte.


1.º DE DEZEMBRO

Récita de gala, dedicada à cidade de Guimarães, no teatro de D. Afonso Henriques, que estava muito bem adornado com bandeiras, flores, arbustos, colgaduras de damasco, lanças, tambores e emblemas académicos.

No átrio tocava uma banda de música.

O espectáculo principiou cerca das 9 horas abrindo com um discurso pelo académico Neves Pereira, que foi muito aplaudido,

Seguiu-se a comédia em 3 actos Mosquitos por cordas, desempenhada pelos académicos Neves Pereira, Alfredo Correia, Jerónimo Sampaio, António Amaral e pelas amadoras Ana Roriz e Cândida Guimarães.

Nos intervalos do 1.º, 2.º e 3.º actos recitaram poesias os srs. Francisco Martins Ferreira, António Francisco da Silva e Jerónimo Sampaio.

Terminou o espectáculo com a comédia em 1 acto Um fura-vidas, por Jerónimo Sampaio, Neves pereira, Alfredo Correia, Domingos Agra, António do Amaral e Ana Roriz.

O espectáculo agradou em geral, e prova esta asserção o grande número de aplausos e flores com que a selecta sociedade, que enchia literalmente o teatro, galardoou o trabalho dos briosos académicos.

A parte musical, a cargo do professor Sr. Paranhos, também foi executada magistralmente, e por este motivo foram justas as muitas palmas que recebeu.


NA SEXTA-FEIRA

Pelas 8 horas da noite os académicos em grande marcha aux flaumbeaux andaram às posses, e depois tiveram o divertido magusto.

[Povo de Guimarães, N.º 6, 1.º ano, Domingo, 6 de Dezembro de 1896]


O BANDO

Saiu no domingo, como estava anunciado.

A chuva impertinente que caiu durante a tarde não conseguiu arrefecer o entusiasmo dos briosos académicos.

Uns a cavalo em

"Lindas exibições, fantásticas folias

Que só em Guimarães as houve nestes dias."

Outros a pé, fazem

"Que as peles rufem bem, berrem com bizarria,

Retumbando no espaço um eco de alegria."

Num landeau tirado por duas magníficas parelhas, vinham o presidente da comissão dos festejos, que recitava o pregão, e o primeiro e segundo secretários.

Aquele dizia que

". . . . . . . . . . . . . . . .Estudantes não vergam

A cerviz, a quem quer que pretenda mandá-los,

Quer seja um Rei, quer mestre de badalos."

Ficámos cientes.


O CORTEJO ACADÉMICO

Na segunda-feira de tarde, saiu da Escola Industrial assim organizado:

À frente os indispensáveis tambores e zabumbas; seguiam-se três académicos montados em bons cavalos, um dos quais empunhava a bandeira da academia; a filarmónica União executava o hino académico, precedendo-a a dança das lavradeiras e picadores. Fechava o préstito o carro triunfal conduzindo sobre uma enorme esfera a figura de Minerva empunhando um facho.

Depois de percorrerem algumas ruas, recolheu-se cerca das 7 horas da tarde, excepto a dança que visitou as casas das principais famílias de Guimarães.

Na sala da nossa redacção estiveram às 11 e meia, demorando-se até à meia-noite.

O académico Sr. Jerónimo Sampaio, num brinde feito ao nosso director, agradeceu em nome da academia as palavras de deferência tem tido para com a mesma academia, e muito especialmente para com os académicos que tomaram parte nos festejos de S. Nicolau. Por último, foram levantados vivas calorosamente correspondidos pelo muito povo que ainda os acompanhava.

Pela nossa parte agradecemos e desejámos que para o ano os vossos folguedos venham novamente arrancar Guimarães à sua monotonia habitual.

[Povo de Guimarães, N.º 7, 1.º ano, Domingo, 13 de Dezembro de 1896]

terça-feira, 20 de novembro de 2007

Do colégio da Costa

O Mosteiro da Costa em 1928, fotografia de "O Labor da Grei", editado por Francisco Martins (encontrada no Arquivo da Sociedade Martins Sarmento).

“Os religiosos de S. Jerónimo só passaram a ter estudos regulares dentro da Ordem após a criação, em 1535, do colégio do mosteiro de Penhalonga. Este fora instituído por D. João III, vivendo de rendimentos próprios. A respectiva direcção coube a Frei Diogo de Murça, regressado havia alguns anos de Lovaina, onde se doutorara em Teologia.

Em 1537, o rei decide mudar o colégio para o convento da Costa, para nele poder estudar o infante D. Duarte, seu filho natural, que lá se criava. O salário dos mestres e o mantimento dos alunos passou a ser pago pelas rendas do mosteiro de Refojos, de que era comendatário D. Duarte e administrador o já mencionado Fr. António de Lisboa. Mais tarde, a gestão dos rendimentos passou para o próprio Fr. Diogo de Murça. Numa carta datada de 8 de Novembro de 1542, este prelado dava conta a D. João III do seu entusiasmo, "pois se não pode fazer mais do que é feito, nem cuidei que entre frades de S. Jerónimo, que tão fora estavam de estudar, se pudesse introduzir exercício de letras da maneira que este procede" (A. Brásio, 1983, p. 309). Aliás, logo no primeiro ano em que o colégio esteve instalado na Costa, ele fora visitado por Clenardo que, numa das suas epístolas, diz ter assistido às lições dos mestres, "todos portugueses" e demonstrando ser "bastante desempoeirados no seu assunto" (idem, p. 310).

De acordo com o respectivo currículo, existiram na Costa duas séries de estudos: os preparatórios, constituídos pelas Humanidades e pelas Artes; e os de ensino superior, relacionados com Teologia. No dizer de António Brásio, "o plano de estudos adoptado na Costa deitava de lado… o trívio e o quadrívio e seguia o sistema pedagógico francês e dos Países-Baixos, de começar a vida académica por um período de vida humanística de espírito". É bem conhecido o funcionamento do ano lectivo, assim como o quotidiano dos escolares, mas não cabe aqui descrevê-los. Deve, no entanto, salientar-se que, desde 1539, foram conferidos graus em Artes e Teologia e que, por alvará de 6 de Julho de 1541, D. João III concedeu autorização para que aos estudantes da Costa pudessem ser atribuídos os graus de licenciado, bacharel e doutor em Artes. Estes ficavam equiparados aos da Universidade de Coimbra, considerando-se, assim, recompensados os esforços de Fr. Diogo de Murça e seus mais directos companheiros, como Inácio de Morais, António Caiado, Gaspar Bordalo, Marcos Romeiro, etc. Um relatório do ano seguinte indicava que frequentavam este colégio 70 estudantes de Gramática, 26 de Artes e 14 de Teologia.

Os momentos de euforia depressa se esvaneceram. Destes estudantes, só uma pequena percentagem eram monges, pelo que a rentabilidade para a Ordem era escassa. A morte precoce do infante D. Duarte, em Agosto de 1543, veio agudizar os problemas, pois, deixando a Costa de ser uma escola principesca, mais dificilmente beneficiaria dos favores régios. De facto, D. João III estava cada vez mais interessado em mudar o colégio para Coimbra, onde, segundo as suas palavras, "há estudo geral, e há muitos mestres e doutores em teologia e artes, de que podem aprender os ditos religiosos e grande exercício de letras, o que não podiam ter no dito mosteiro da Costa, tão interamente" (C. Santos, 1980, p. 60). Com a passagem de Fr. Diogo de Murça para Coimbra, em 1544, e a transferência das rendas do convento de Refojos, logo dois anos depois, acelera-se inesperadamente o processo de degradação. Em 1553, por fim, viria a dar-se a incorporação do Colégio de S. Jerónimo na própria Universidade.

A prestigiante passagem dos estudos universitários pelo convento de Santa Marinha da Costa é, ainda hoje, recordada por uma inscrição lapidar, embutida no exterior da capela-mor.”



Manuel Luís Real, "Santa Marinha da Costa: Notícia Histórica",
Boletim da Direcção-Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais N.º 130,
Ministério das Obras Públicas, Transportes e Comunicações, Lisboa, 1985.

sábado, 10 de novembro de 2007

As Nicolinas há meio século

"Quanto à geração nova, aqui há uns três anos, na ocasião da grande ceia no Jordão, a que compareceram uns trezentos velhos nicolinos, a Academia do Liceu foi representada por uma deputação de uns cinco ou seis rapazes.

Fiquei na mesa de cabeceira, na extremidade direita, e na mesa perpendicular estava essa deputação muito comprometida no meio da alegria barulhenta de toda aquela velhada.

Diante de cada conviva uma garrafa, destas de litro, com o belo verde, magnífico.

Os velhos e velhotes todos fizeram as honras da pinga, e cascaram-lhe quase como nos bons tempos, alguns até esgotaram a garrafa.

Pois aqueles cinco ou seis anjinhos andaram, entre todos, por garrafa e meia, ò resto foram águas das Pedras, sem se lembrarem de que há um milhão de portugueses que vive desse trabalho da colher e engarrafar aquela deliciosa pinga.

E no Pregão do ano passado o Torcato Simões, em versos braulianos, invocando as tradições nicolinas, apelava para o entusiasmo da rapaziada a cascar nos bombos com alma e músculo, de “maçanetas ao alto” até lhes arrebentar as peles.

Pois sim, assisti ao seguinte espectáculo: – dois garotitos, que nem estudantes eram; seguravam um bombo de barriga para o ar, e um grandalhão do Liceu ia-lhe dando umas maçanetadas bastante anémicas...

Bons tempos os do Brito, Beiçarola, Pai Casaca, Fortunato Sampaio, Rodolfo Aguiar e outros, que lhe puxavam com alma até lhes meter os tampos dentro, e até apagavam os candeeiros, de petróleo, da iluminação da Câmara.

E já não há o 1.° de Dezembro, porque os rapazes têm todo o tempo tomado, e a “Bola” não lhes dá ocasião para se divertirem..."

António de Quadros Flores (Coronel), Guimarães na última quadra do romantismo, 1898-1918, Tipografia Ideal, 1967, cap. XXIX, págs. 156-157.

quinta-feira, 8 de novembro de 2007

As Nicolinas há um século (II)

"Do S. Nicolau de há mais de meio século já deixei aqui uns traços de como o vi, no tempo em que “velhos” e novos o solenizavam, com estrondo, alegria, e graça; e entusiasmo de estudantes e população.

Essas foram as impressões mais nítidas, mas ainda ficaram uns episódios dispersos que já não posso localizar e que os meus contemporâneos procurarão recordar e enquadrar no ambiente em que se realizaram.

Um deles, e quase todos Os que vou relatar, se passou na récita do 1.° de Dezembro no velho, acolhedor e aconchegado teatro de D. Afonso Henriques, no Campo da Feira.

Saía a Academia com bandeira. Comissão das festas de capa e batina, laço verde de grandes fitas no ombro esquerdo, a música do João Inácio, e andava por essas ruas aos “vivas” às Damas vimaranenses, a João Pinto Ribeiro (coitado, morto há séculos), aos heróis e, é claro, à Academia vimaranense, e outros que tais, acompanhada de numerosa garotada e os imprescindíveis archotes, que davam um tom espectacular e fumarento e entusiasta a essa marcha da rapaziada.

Recolhia o cortejo e já o teatro se encontrava à cunha, camarotes, plateia, geral e “galinheiro”, e a Comissão com a bandeira, e o grupo que envergava capa e batina, faziam a sua entrada solene no palco para o discurso de abertura, pronunciado pelo Presidente.

Ora é preciso dizer que para estas ocasiões solenes os rapazes não estavam preparados com o sangue frio necessário para enfrentar o público, e procuravam ganhar coragem com uns copitos de jeropiga ali na loja do “Preto” ou no Zé da Rede; de modo que chegavam ao palco já um pouco “entusiasmados”, e um deles o Presidente, encarregado do discurso de apresentação, não sei se o Ferreira de Lemos, de Santo Tirso, se o “Pai Casaca”, entre o profundo silêncio do público, destraçando a capa, compondo a batina e pigarreando de circunstancia, adianta-se uns passos e começa, com pausa e todo o aprumo:

“1.° de Dezembro era o ano 1640 era o dia…”

E mais não disse, tal foi o trovão de aplausos, gritos, assobios, patadas e palmas que durante uns minutos acolheu este inesperado exórdio, que acabou com o descer do pano no meio da mais franca e ruidosa alegria/e a récita começou.

Havia nos intervalos umas recitações e monólogos cantados, como o do “Zabumba”, pelo Aníbal Carneiro, de que só lembro o estribilho:

Pum, catapum, catapum, pum, pum,

do zabumba eu tiro som...

E na ribalta o José Luciano Ferreira Augusto," sobrinho do Dr. José Luciano de Castro, muito grave, pausado e romântico,"de olheiras de rolha queimada, avançava uns passos comedidos e solenes, e em voz cava, olhos em alvo, a mão sobre o peito, profere só isto:

Olhos, vi uns

E, depois de os ver.

Não vi mais nenhuns...

Às vezes surgia de um camarote uma figura esguia, de capa e batina com gestos largos a declamar uma poesia alusiva ao: dia Solene.

E havia outros intermédios em que tomavam parte os mais afoitos e tinham bossa para o palco.

Mas; o acto principal era geralmente unia comédia, opereta ou zarzuela adaptada à ocasião e em que figuravam os rapazes com maiores aptidões para a cena, e de uma vez até uma actriz, a Cármen de Oliveira, da companhia de operetas que funcionava no barracão de S. Francisco, que acedeu gentilmente a tomar parte na récita do 1.° de Dezembro.

Do entrecho da comédia já não me recordo, mas tenho a lembrança de que a Cármen fazia o papel de uma gentil lavradeira, que o Fernando Chaves, armado em conquistador, queria arrastar para o pagode da cidade.

E então o Fernando com, uma bela voz de barítono, Cantava a ária da sedução:

Mariquinhas, meu amor

Bem feliz podias ser

Se comigo p'ra cidade

Tu quisesses ir viver.

E ela:

Eu não quero cá sombrinhas,

Nem de cetim os vestidos

Tenho em mais estas roupinhas

E depois o diálogo cantado:

Mariquinhas

Vá-s'embora

– Dás-m'um beijo ?

Não senhor.

A seguir o dueto:

Um só beijo

Só que seja

Um só beijo

E partirei

Nem um beijo,

Só que seja

Nem um beijo

Lhe darei

E salta lá detrás dos bastidores o Brito, que era o namorado da rapariga, armado de cacete e, se não valem ao Fernando, como era da peça, escaqueirava-o, e quero crer que o faria, tanto foi a genica com que arremeteu e a realidade com que quis desempenhar o seu papel.

Noutra récita o Aprígio fazia de rapariga, disfarçado, com uma cabeleira ruiva e; lá pelo correr da peça, dava-lhe um chilique.

Chamavam o médico, que era o Fernando, e aparecia de polainitos brancos, luneta presa a uma fita e suíças, a receitar-lhe umas gotas homeopáticas, que preparava na ocasião numa série de frascos de que tirava umas gotas para dissolver na água do seguinte, e assim sucessivamente numas “dinamizações”; como dizia o Fernando, que nessa ocasião era médico, mas homeopata.

E de nada mais me lembro dessas memoráveis récitas do 1.° de

Dezembro.

Das Danças, além das que recordei há anos, tenho ideia de duas, ambas da autoria do P.e Roriz, uma em. Que se falava dos malefícios do tabaco, sem contudo se referir ao cancro do pulmão, e a outra acerca da aliança inglesa, e naturalmente a propósito da estadia aqui dos ingleses que vieram montar a estação termoeléctrica do Campo da Feira, onde está agora uma das fábricas da casa Pimenta Machado.

E dessas danças só recordo o seguinte:

Misses loiras, lavradeiras,

Zé Povinho, lord inglês,

Brincadeiras fazem sempre

Neste ninho português."



António de Quadros Flores (Coronel), Guimarães na última quadra do romantismo, 1898-1918, Tipografia Ideal, 1967, cap. XXIX, págs. 153-156.

segunda-feira, 5 de novembro de 2007

As Nicolinas há um século (I)

"A [banda] do João Inácio actuava principalmente, na minha lembrança, nas festas Nicolinas e na noite do “Pinheiro” lá vinha ela a desfiar o Hino de S. Nicolau, para o qual o velho amigo, e Nicolino, Torcato Simões engendrou a letra, já muito tardiamente para lha decorarmos, nesta terra onde não há queda para o canto.

No primeiro de Dezembro, à porta do “Afonso Henriques”, a estudantada, archotes acesos nas mãos dos garotos, soltava o grito “Ó Inácio, toca o Hino”, e aquela rapaziada desandava pelas ruas de Guimarães aos vivas, e um ou outro trauteava a letra adaptada, que começava assim:

“Ó homem da pêra branca!

Qu'é lá isso?”

Etc., etc, etc.

Depois eram as “Posses” e o Magusto, que terminava no alpendre da igreja de S. Pedro, dentro das grades, na distribuição das castanhas e da vinhaça à garotada, oleiros e música.

Geralmente o Inácio era caloteado pela Comissão Académica, que nunca prestava contas, e havia sempre um benfeitor que fiava a estudantada, nem sempre satisfeita, e parece que, afinal, o Inácio tinha certa afeição aos estudantes, como qualquer “nicolino”.

O homem do bombo era um preto, de bigodes grisalhos, que também distribuía o “Independente”, do Albano Pires de Sousa."

António de Quadros Flores (Coronel), Guimarães na última quadra do romantismo, 1898-1918, Tipografia Ideal, 1967, cap. XVII, pág. 54

sexta-feira, 2 de novembro de 2007

Cucusio

Raul Brandão

Véspera de S. Nicolau e toda a populaça na rua: uma mixórdia de grotesco e de caligens, de lama e gritos, de gestos confusos e de novelos pastosos que se acastelam lá no alto e barram o céu de horizonte a horizonte em pesadas cortinas sobrepostas. Vem a cerração e a chuva pegada e tão miúda que amolece o granito. Das ruas irrompem sucessivos magotes, num clamor de inferno. Na noite ressoam gritos, urros, e clarões de archotes revoluteiam tornando-a mais densa e profunda: fisionomias e gestos surgem de repente como aparições e logo se somem no pez. É uma mescla de negrume e fogo, de braços que se agitam, de doida ventania e chuva cuspinhenta. Os tambores rufam sem interrupção — dir-se-ia que o planeta estoira farto de sonho inútil — e do nada, iluminados a vermelho, brotam bamboleando e somem-se logo sem aparência de realidade, o arco medievo e a mole rendilhada da Sé, para depois a novo clarão ressurgirem só por momentos com a abóbada, o Cristo, as colunatas e os fantásticos recortes de muralha e sombras que tomam corpo e se amontoam nos vastos fundos onde o clarão não penetra. Uma derrocada em tropel, um jacto vivo de escuridão, um burgo de sonho entrevisto que o vento leva consigo.

A turba avança, a praça transborda: há milhares de bocas que gritam ao mesmo tempo. Aquele mar humano oscila, cresce, clama e dispersa-se. Quando os archotes se apagam, fica só a noite e o ruído; avivam-se os fogaréus e voltam a entrever-se as faces, as bocarras abertas pelos risos estúpidos, rasgados de orelha a orelha.

— S. Nicolau! S. Nicolau!...

É, na véspera da festa, o dia das posses, em que desde tempos imemoriais certas famílias estão na obrigação, que a populaça não perdoa nem perde, de dar, uns castanhas, outros lenha, vinho, pão, uma árvore. Forma-se o cortejo. Já estrondeiam os primeiros compassos da charanga, que desce a rua a passos marciais, archotes à frente. Um reboliço, mais berros, rufos desesperados, uivos, maltas que desaguam de outras vielas recônditas e a multidão que oscila e se espraia até à muralha da igreja. Em cima a abóbada negra do céu goteja lama e as névoas arrastam-se lentas e esponjosas, bambinela atrás de bambinela, pegam-se às paredes e deformam-nas, desagregam-se, suspendendo–se nas arestas do granito como grandes farrapos de luto. Os uivos redobram. O mesmo pé-de-vento parece que faz redemoinhar a canalha e galopar no céu os grossos novelos de fumo.

— A câmara! aí vem a câmara!...

Pendões balouçam-se, inclinam-se como velas sacudidas pelo temporal, a que se agarram meia dúzia de náufragos. Logo mais alto, se ouvem os clamores e a charanga ataca as primeiras notas duma marcha de guerra. Abre o cortejo o presidente do município, imponente e grave, com o pendão erguido; seguem-no, solenes, o Pinheiro Careca e outros tipos cerimoniosos, de sobrecasaca e chapéu alto, sob a chuva incessante. um vaivém: a mó de gente empurra-se e rodopia, mas organiza-se afinal o cortejo, depois de desordens e protestos; das tabernas irrompem os últimos matulas de suíças; e o céu todo lama desce, desaba, imenso, gelado e fétido, sobre a triste humanidade. Fúnebre, lá consegue o Testa, de cara rapada e olho em alvo, abrir a marcha com o pendão erguido ao vento.

O Careca pega com sofreguidão a uma borla, a charanga segue a passo cadenciado, e por último os magotes anónimos e confusos.

— S. Nicolau! S. Nicolau!...

E tudo aquilo, mar de uivos, treva, archotes, homens e fêmeas, urros e clarões, jorro desordenado e imenso, se engolfa nas ruas estreitas, numa interminável e ensurdecedora bicha. Aqui e além o fogaréu dum archote: dum lado a casaria, do outro a muralha antiga, compacta e bárbara, a que a noite dá dimensões monstruosas.

[…]

Por fim um jorro humano estaca diante dum prédio emudecido e escuro, os clamores e a música cessam e a bicha, depois de ondular, atende ansiosa. Novelos sobre novelos as nuvens continuam lá em cima a sua desordenada e eterna correria sem fito.

O pendão camarário oscila, há um baque, e, grave como quem cumpre um rito, o Testa destaca-se do grupo e avança limpando da careca o suor das grandes solenidades. Diante do prédio, no silêncio e na noite, três vezes chama:

— Cucusio! cucusio! cucusio!...

Nada. Ninguém responde, e um frémito percorre a turba que espera sempre, milhares de cabeças erguidas no ar, as bocas abertas como peixes diante da casa negra e cerrada. Para o fundo no negrume outros, e mais outros envoltos na escuridão, atendem também como quem espera um milagre. E ouve-se no silêncio a chuva cair, miúda, pegajosa, eterna. Pela fresta duma janela lá se escoa por fim uma ténue claridade — e ao fundo estremece, silenciosa e compacta, a canalha comovida e atenta, até que, avançando com imponência mais dois passos, o Testa, como quem invoca, implora e ordena, torna:

— Cucusio!...

Sente–se abrir o postigo do prédio e uma voz comovida responde afinal ao apelo:

— Pronto, meus senhores, cá está o Cucusio!...

E logo assoma ao peitoril do primeiro andar, alumiado pela chama vacilante da vela, um monstruoso traseiro — como, desde tempos imemoriais, é obrigação daquela família, na véspera do santo, transmitida religiosamente de pais para filhos, mostrá-lo à vila. A charanga ataca o hino, os tambores ao mesmo tempo rufam, os urros estrugem, o pendão oscila levado pelo Testa, no alto daquela onda, e o sr. Anacleto corre sem ver nem ouvir, desorientado.

Raul Brandão, A Farsa (1903), cap. III.

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João Cucusio vivia na Rua Nova, onde faleceu no dia 1 de Agosto de 1825. Costumava ser visitado, no dia 5 de Dezembro de cada ano, pelos estudantes, quando andavam “às posses”, que lhe faziam à porta uma grande gritaria: "Ò Cucusio mostra o cu" ao que ele sempre acabava por satisfazer, “vindo à janela mostrar-lhes o olho do cu”. (Fonte: Efemérides Vimaranenses, de João Lopes de Faria).