S. Nicolau, na Igreja Paroquial de S. Nicolau, Porto.Fotografia de João Paulo Sotto Mayor, retirada do livro "Dicionário de Santos",
de Jorge Campos Tavares, Lello Editores, 3ª edição, 2004, Porto.
S. Nicolau, na Igreja Paroquial de S. Nicolau, Porto.31 de Agosto de 1823: Neste dia houve a 3.ª e última corrida de touros, precedida de um baile (uma vistosa dança) feito pelos estudantes, o qual percorreu todas as ruas, em honra do Visconde d'Azenha, Martim Correia, pela sua chegada de Lisboa no dia 16. PL e J. L. de F.
13 de Maio de 1825: Às 7 horas da tarde chegaram aqui próprios que traziam folhas com as proclamações de S. M. Sr. D. João VI em que ordenava não obedecessem a seu filho o sr. Infante D. Miguel. E também nas mesmas folhas vinha um decreto do dito rei que mandava soltar todos os que haviam sido presos desde o dia 30 de Abril, e demitindo do posto e general em chefe a S. ª R. o sr. Infante D. Miguel. À noite houve teatro em que os estudantes representaram, "José II", mas não se fez memória desta notícia. PL
27 de Junho de 1825: Nasce nesta cidade o padre José Leite de Faria Sampaio, vulgo o padre José Mico, maior brincalhão que durante muitos anos, até 1866, tiveram os folguedos dos estudantes ou festas do S. Nicolau. Era bom cantochonista, tinha para isso uma forte e doce voz, muito agradável.
1 de Agosto de 1825: Morre João Cucusio da Rua Nova. Foi sepultado na capela dos 3ºs Franciscanos. PL - Este era o célebre Cucusio que na madrugada de 5 de Dezembro os estudantes, andando às posses, visitaram fazendo-lhe em frente da sua vivenda grande gritaria "Ò Cucusio mostra o cu" e ele os satisfazia vindo à janela mostra-lhes o olho do cu.
5 de Dezembro de 1825: "São presos alguns estudantes por andarem com as caras pintadas. No dia seguinte pegaram em armas alguns milicianos para prenderem todo aquele que andasse mascarado. Os estudantes que andaram com as caras pintadas foi por haver tolerância do Corregedor a que o Juiz de Fora se opôs ,mandando-os prender. Estas ordens indispuseram a maior parte dos habitantes contra os motores de tais medidas. No dia seguinte apareceram imensos pasquins". P.L
[in Efemérides Vimaranenses, de João Lopes de Faria. Manuscrito da SMS.]
17 de Setembro 1817: Provisão nomeando professor substituto de latim por 3 anos o padre Francisco Xavier de Sousa Lobo, no impedimento por moléstia do professor proprietário, padre António Lobo de Sousa.
13 de Maio de 1819: Por ser o aniversário de el-Rei D. João VI, os estudantes representam na casa da ópera, que era atrás da capela de Nossa Senhora da Guia, onde está a casa da sacristia, uma tragédia que foi mal desempenhada.
20 de Outubro de 1819: Provisão nomeando substituto por 3 anos do professor de latim, doente, padre António Lobo de Sousa, a João Ferreira dos Santos.
1 de Dezembro de 1821: O juiz de fora Bento Ferreira Cabral proíbe que os estudantes andem mascarados em dia de S. Nicolau. PL (que afinal foi tolerado a pedido de Gaspar Teixeira, com a condição de não usarem de armas proibidas).
3 de Dezembro de 1821: Os estudantes em número de 140 fazem um requerimento ao juiz de fora Bento Ferreira Cabral o qual é apresentado por Gaspar Teixeira, e o corregedor (sic) tolera-lhes se mascarassem mas proibindo o uso de armas. P.L.
27 de Julho de 1822: Provisão nomeando professor da cadeira de latim de Guimarães a João Ferreira dos Santos, vaga por óbito do padre António lobo, com 240$000 réis. Tomou posse a 7 de Agosto de 1822.
6 de Dezembro de 1822: Não obstante haver proibição, saíram alguns estudantes mascarados. P.L. - Diz o José de Freitas Costa: veja-se Poesias a João Evangelista.
28 de Novembro de 1822: Sai um Bando em que por ordem do Intendente geral da polícia se proibiam as mascaras em dia de S. Nicolau.
12 de Janeiro de 1823: Saem mascarados os estudantes acompanhando um carro com o retrato de Sua Majestade. o Sr. D. João VI e cantando o hino constitucional e fazendo uma brilhante dança. Repetiram tudo no dia seguinte. P. L.
[in Efemérides Vimaranenses, de João Lopes de Faria. Manuscrito da SMS.]
A queda da monarquia e a instauração da República em Portugal levou a que as Nicolinas, vistas como um anacronismo, fossem objecto de alguma contestação (passageira), em parte também resultante de um acidente com o pinheiro, que tombou, quando tratavam de o erguer, matando um rapaz de 13 anos. Alguns dias depois, publicava-se no jornal Alvorada o seguinte texto, assinado por um ex-estudante:
À Academia Vimaranense
(Em especial à Comissão das chamadas “Festas de S. Nicolau”)
Briosos rapazes:
Um lamentável desastre nas vossas festas, no qual não tendes a culpa, é certo, mas de que estais, sem duvida, pesarosos como se a tivésseis, deve induzir vos a pensar no extermínio dessa coisa, que nenhum sentido faz, das Festas a S. Nicolau.
Raciocinando a sós e a frio, vós que podereis ser cábulas mas não sois estúpidos, compreendereis que tais Festas vão-se aguentando por um tour de force e que só as anima e vitaliza o vosso entusiasmo juvenil ou as olha boquiaberto e saudoso algum velhote, veneranda relíquia do tempo em que elas eram, pelo menos, uma exibição de costumes. Tais festas, porem, nem comemoram uma data importante da nossa história, nem consagram uma benemerência social, nem visam a acendrar o sentimento patriótico, nem sequer têm o mérito duma folga higiénica ou divertimento inofensivo.
Pelo contrario. Sob este ponto de vista, ficam muito aquém duma corrida de garranos ou da morte do galo. Servem apenas para catarrais e pneumonias, para alentar tuberculoses, para desassossego e perturbação do público, para partidas e pirraças que não esquecem, para desastres, enfim, como esse que sabemos. E depois hão de ser-vos sempre tolhidas, sempre aguadas, as tais festas, por mais exibicionistas e dançarinas que as planeeis. Sim, bem compreendeis, dias de festança e aulas a correr é uma alegria chocha, é uma alegria a meio pau!
Dias de arruado e chuva a potes de mandar ao diabo a patuscada!
É por isso que me apraz vir dizer-vos: Acabai com isso, que faz lembrar os batuques dos selvagens, que parece um trecho de sertão africano deslocado para um meio civilizado.
Desisti desse mal simulado Carnaval que tem sido um protesto arrastando-se com o rótulo pomposo de Festas a S. Nicolau.
Acabai com isso! Quereis associar o vosso nome a uma obra linda? Metei ombros à fundação duma Sociedade Académico – Filantrópica para auxiliar os vossos camaradas pobres. Pegai já nesse dinheiro que juntastes ou juntardes e seja ele o fulcro da nova empresa.
Depois fazei quetes, promovei saraus, dai espectáculos para obterdes fundos cada vez maiores. Adestrai-vos para o palco, para a recitação, para o discurso, para a música. Desenvolvereis assim aptidões latentes e, ajudando o camarada pobre, começareis a ser desde já um alto valor social. Isto sim, que é belo, que é altruísta, que é generoso, que é nobre e próprio de rapazes briosos e inteligentes! O que por aí exibis com o peguilho de Festas a S. Nicolau é uma pavorosa coisa, trabalhosa e inútil, que o vosso bom senso repele decerto, mas em que vos meteis porque já os outros se meteram e vós não quereis ficar atrás.
Não vos acanheis em repudiar essa herança.
Não perfilheis esse passado.
É uma glória reformar para bem.
Buscai essa glória, abolindo anacronismo e substituindo-lhe uma coisa moderna e linda — Trabalhar pela Filantrópica.
Tendes aí o bom Padre Roriz, todo entusiasta pelos progressos da sua terra e pelas generosas tentativas. Ele que, segundo é notório, vive agora arredado das lides políticas e jornalísticas, não se furtará de certo a cooperar convosco no lançamento e consolidação duma Sociedade Filantrópica Vimaranense com o fim de subsidiar estudantes pobres.
Buscai o seu auxílio, a sua direcção, o seu conselho. Organizai-vos em Grupo Dramático-Musical que representando, recitando, discursando, musiqueando quebre de onde a onde, a monotonia do viver vimaranense e seja como que o ganha-pão da incipiente sociedade.
Fazei convergir para Ela as energias, os entusiasmos, os sacrifícios que malbaratais ingloriamente e perigosamente do pinheiro, no zabumba, nas roubalheiras e estúrdias ao S. Nicolau.
Fosse eu estudante, que não descansaria enquanto não visse realizada a Sociedade Filantrópica Académica e canalizadas para ela as simpatias que os escolares parecem votar às absurdas Festas Nicolinas.
Guimarães 3-12-1910.
Um ex-estudante.
Janeiro de 1708 (sine die): Neste mês, o D. Prior D. João de Sousa, sumilher da cortina de Sua Majestade, inquisidor apostólico da Inquisição de Lisboa e cónego prebendado na sé de Coimbra, faz visita no espiritual e temporal à Colegiada, e dá carta de visitação, sem designação do dia em que foi feita, assinada em 25 de Fevereiro de 1708, consta o seguinte capítulo:
"74 - É coisa muito indecente que, no dia da festa de S. Nicolau, que nesta vila se celebra pelos estudantes, andem os mesmos a cavalo com sobrepeliz e murça, fazendo gravíssima ofensa à autoridade do hábito canonical, e, sendo esta acção muito repugnante à veneração que se deve às vestiduras dos sacerdotes, pois se convertem em usos sumamente profanos, de que forem ordenadas para o culto divino, e detestando tão irreverente abuso, proibimos a todos os nossos súbditos, sob pena de excomunhão maior ipso facto incurrenda, que emprestem murças e sobrepelizes, nem consintam por algum modo, que se sirvam das suas para o dito efeito. "
[in Efemérides Vimaranenses, de João Lopes de Faria. Manuscrito da SMS.]
06 de Dezembro de 1808: Em consulta da Junta da Directoria Geral dos Estudos de 11 de Novembro de 1808 foi indeferida por aviso régio de 21 de Novembro de 1808 a representação da Câmara, nobreza e povo de Guimarães pedindo a criação de uma cadeira de filosofia racional e moral, e deferiu na parte em que pedia o restabelecimento da de retórica e por Provisão régia deste dia 6 de Dezembro de 1808 foi nomeado professor proprietário desta cadeira de retórica e poética o padre frei António Pacheco mestre de teologia e religioso de S. Domingos de Guimarães, com o ordenado de 280$000 réis anuais pago aos quartéis pelo cofre do subsídio literário, e condição de dar aula fora do seu convento.
19 de Janeiro de 1809: Abriu-se a aula de retórica e poética no convento de S. Domingos, regida por frei António Pacheco.
13 de Dezembro de 1813: Provisão concedida por despacho de 10 de Dezembro de 1813, permutando para a escola primária de S. Martinho de Sande o professor da de Brito José Alves Guimarães a seu pedido. - vide 25 de Janeiro de 1814 -
25 de Janeiro de 1814: Provisão permutando o professor da escola primária de S. Martinho de Sande, padre António José da Silva para a de Brito, a seu pedido, por despacho de 10 de Dezembro de 1813.
01 de Fevereiro de 1814: Foi dada posse a José Álvares Magalhães, morador no lugar da Taipa, freguesia de S. Tomé de Caldelas, permutado na qualidade de mestre proprietário para a primeira escola deste termo com exercício em S. Martinho de Sande.
16 de Fevereiro de 1814: Em sessão de vereação foi dado posse da cadeira da 2ª escola deste termo com exercício em S. João de Brito, ao padre António José da Silva, desta freguesia, que por provisão da Real Junta da Directoria Geral dos estudos e escolas dos reinos e domínios, passada em Coimbra a 25 de Janeiro de 1814, fora permutada na qualidade de mestre proprietário que era da 1.ª escola, de S. Martinho de Sande.
Já lá está, ao alto, imponente e grandioso, a pedir meças às torres de S. Gualter, o mastro que anuncia que a Academia Vimaranense está, por estes dias, em festa. O cortejo foi, como já se dizia em 1925, como de costume. E, como de costume, foi diferente, espontâneo, anárquico, algumas vezes desafinado, mas imensamente participado e grandioso. Muita gente, mas não como sempre, já que era muita mais do que num passado não tão distante assim, porque agora também são muitos mais os estudantes. Como sempre, comentava-se que, este ano, o pinheiro é mais pequeno. Como sempre, não sei dizer se o é, ou não, mas sei que os bois me pareceram menos do que o costume (longe vão os tempos das mais de duas dúzias de juntas a puxarem o tronco) e menos avantajados do que os de outrora. Mas tinham uns cornos magníficos, é verdade. O Pinheiro, cumprindo a sua função anunciadora do que está para acontecer, foi, verdadeiramente, uma festa* ruidosa e regada, que desafiou a noite fria, como manda a tradição. Agora, está nas mãos dos nossos estudantes fazerem com que os outros números do programa Nicolino tenham grandeza e participação à altura do acto preliminar.
*O Pinheiro é uma festa, meus senhores. Por que raio persistem em dar-lhe nome de funeral? Será por confundirem um pinheiro com uma gata qualquer?
Foi-me pedido pela Associação dos Antigos Estudantes do Liceu de Guimarães, para realizar um projecto para uma escultura que simbolizasse o "Nicolino", nome por que são conhecidos os estudantes, na cidade de Guimarães, e que, de certo modo, fosse, também, uma homenagem da própria cidade aos seus estudantes.
Assim, procurei criar uma forma simbólica (talvez sugerida pelo esvoaçar da "capa", que faz parte do traje académico), e que se integrasse no local que foi proposto para sua implantação, isto é, junto da igreja dos Santos Passos. Foi minha intenção criar uma forma muito simples, que se integrasse no local, dialogando, enquanto obra contemporânea, com o monumento religioso, ali existente.
Esta obra é para ser construída em chapa de aço inoxidável, sem quaisquer tipo de soldaduras visíveis e pintada com tinta epoxi de dois componentes.
Lisboa, 2 de Junho de 2000
José de Guimarães
20 de Setembro de 1793: Provisão nomeando professor substituto da escola primária, de ler, escrever, contas e catecismo, com o ordenado anual de 60$000 réis, na vila de Guimarães a António José de Abreu Guimarães, cadeira vaga por falecimento de João Baptista Monteiro.
13 de Julho de 1802: Provisão nomeando professor substituto de gramática latina, em Guimarães, a Francisco José de Oliveira, nos impedimentos do professor padre António Lobo de Sousa, que o indigitou no requerimento em que alegou ter moléstias e pelo longo tempo de ensino se achava impossibilitado.
8 de Abril de 1803: Sexta-feira santa. - Fez-se nesta vila, no sítio do Arco de S. Francisco, um riquíssimo e aparatoso Descimento da Cruz, com o qual se gastaram mais de 12 contos de réis, além de outras muitas despesas que algumas casas fizeram com algum figurado. Não consta que houvesse outro igual em Portugal, nem anterior, nem posterior. O grande monte elevava-se quase até ao cimo das carvalhas que lhe ficavam na retaguarda. Quase todos os telhados do terreiro de S. Francisco e parte dos da Rua de Couros foram improvisados terraços (balcões) - (Nota minha: Dizia-se que até as Beatas do Anjo fizeram um na torre do seu Recolhimento, pois nesse tempo as casas do terreiro de S. Francisco eram baixas, não excediam a muralha. J.L.F.) - para acomodar as famílias da terra como outras muitas que vieram de partes do reino, até mesmo de Lisboa. Foi uma das melhores funções religiosas que neste género se têm feito em Portugal. A guarda romana era toda de estudantes, e as figuras principais eram frades e padres, notando-se entre estes o padre Bernardo (Pinto) Rola (depois cónego), que representava a figura de S. João, que pela sua posição forçada de 3 horas quase estático se tornou um facto extraordinário e assombroso, a ponto de muitos dizerem que não era possível ser figura viva, mas sim de pasta. No ano seguinte, estudantes e rapazes de várias aulas quiseram também improvisar um outro em uma horta de uma casa da Rua Nova das Oliveiras, cujas despesas eram custeadas pelos pais dos mesmos e com tal incremento iam que, chegando ao conhecimento do prelado, este oficiou logo ao corregedor que imediatamente o suspendesse e fizesse arrasar.
Frei Clemente de Santa Maria das Dores
Por essa Europa fora, S. Nicolau era celebrado pelos estudantes e meninos do coro das escolas das catedrais, em festividades muito populares, quase sempre marcadas por folias e desmandos que, pela sua natureza, não raro eram objecto de proibições decretadas pela hierarquia da Igreja. Em Espanha, onde não faltam testemunhos das festas do obispillo de San Nicolás, estes festejos têm grande tradição. Em muitos lugares, sobreviveram até aos tempos que correm.
O obispillo era um moço do coro (geralmente, o mais jovem dos cantores da catedral) que subia ao coro, com os seus companheiros como acólitos, onde celebrava missas burlescas e imitava chocarreiramente o verdadeiro prelado. Em Burgos, o obispillo envergava vestes episcopais. Montado numa mula e acompanhado pelos outros coreiros, investidos transitoriamente nas dignidades de cónegos da catedral, percorria as ruas da cidade, lançando benzeduras a eito, para divertimento de quantos assistiam a este cerimonial burlesco.
A procura da origem dos festejos a S. Nicolau de Guimarães ainda nos há-de conduzir, como na tradição do obispillo de nuestros hermanos, até às festas de loucos das Idade Média, nas quais se praticava a inversão da realidade, virando-se o Mundo às avessas. Também aqui havia uma igreja equiparada a sé catedral (a Igreja da Colegiada), com moços do coro e estudantes que, no dia de S. Nicolau, escolhiam um de entre eles para se vestir de bispo e andar a cavalo pelas ruas, “causando turvações na vila e muitas indecências”, como notaria o arcebispo D. Veríssimo de Lencastre, em Janeiro de 1675.
Ou seja: não deve ser preciso subir à Costa para escavar as raízes das Nicolinas. Estou certo de que podemos ficar pela Praça Maior.
O Egresso António do Sacrifício Pelo Divino Sustento
Na sexta-feira, cerca das 8 horas da noite, entrou nesta cidade o pinheiro anunciador dos tradicionais festejos escolares dos dias 5 e 6.
A entrada foi real.
O mastro, que mede uma porção de metros, era tirado por 26 juntas de bois, trazendo bandeiras encruzadas em todo o seu comprimento.
Precediam-no numerosos estudantes com zabumbas e tambores, que faziam um barulho ensurdecedor.
Atrás do pinheiro vinha uma banda de música, tocando o antigo hino escolástico, hinos que os velhos ouviam com vivíssima saudade, e não poucos com arroubos de se lançarem nos braços da mocidade estudiosa, zombando por alguns momentos da idade que lhes vai apontando diariamente o seu ocaso.
Guimarães associou-se aos festejos dos estudantes, vendo-se bastantes damas nas janelas e povo nas ruas.
Os estudantes têm ido todas as manhãs às novenas de Nossa Senhora da Conceição.
[O Comércio de Guimarães, n.º 1069, XII ano, 2 de Dezembro de 1895]
Os académicos vimaranenses continuam com os tradicionais festejos de S. Nicolau.
Ontem fizeram o magusto, andando depois as posses.
A alma popular expandiu-se com os rapazes, havendo fraternização geral.
Hoje há o bando, que nos dizem estar primorosamente escrito, ou ele não saísse da brilhante pena do distinto e talentoso advogado dr. Bráulio Caldas.
[O Comércio de Guimarães, n.º 1070, XII ano, 5 de Dezembro de 1895]
Se não atingiram o esplendor de outros tempos, os festejos de S. Nicolau em 1895 tomaram um vulto grandioso, que deixa prever a restauração dessa antiga festa da mocidade estudiosa.
O bando ia excelente, e Sampaio tirou todo o partido dele.
A entrada dos rapazes que vinham ofertar às damas vimaranenses as maçãs foi esplêndida, e não nos recordamos de outra igual.
Na oferta das maçãs gastaram os académicos algumas horas.
Todos eles vestiam muito bem, ostentando alguns costumes de muito gosto.
Houve alguns desarmes, mas não admira em quem não conhece as regras de equitação. Felizmente não houve novidade.
À noite houve cavalhadas e danças, que foram pouco apreciadas; as primeiras, por saírem muito tarde, e, as segundas, por mal se enxergarem.
No acreditado colégio de S. Nicolau houve iluminação, houve iluminação, música e fogo, estando muito povo a apreciar a última noite dos festejos de S. Nicolau, apesar do frio ser intensíssimo.
[O Comércio de Guimarães, n.º 1071, XII ano, 9 de Dezembro de 1895]
O PINHEIRO
Pelas 8 horas da noite de domingo último, deu entrada nesta cidade o clássico pinheiro, anunciador da festa dos estudantes ao seu patrono S. Nicolau. A rapaziada, alegre e entusiasta, rufando diabolicamente em tambores e zabumbas e empunhando archotes, formava um numeroso cortejo que, visto à distância, produzia um efeito deveras surpreendente.
Primorosamente adornado com bandeiras e arbustos, o pinheiro era tirado por 28 juntas de bois e acompanhado por uma banda de música, seguindo vagarosamente para o campo de D. Afonso Henriques, onde foi levantado no dia seguinte.
1.º DE DEZEMBRO
Récita de gala, dedicada à cidade de Guimarães, no teatro de D. Afonso Henriques, que estava muito bem adornado com bandeiras, flores, arbustos, colgaduras de damasco, lanças, tambores e emblemas académicos.
No átrio tocava uma banda de música.
O espectáculo principiou cerca das 9 horas abrindo com um discurso pelo académico Neves Pereira, que foi muito aplaudido,
Seguiu-se a comédia em 3 actos Mosquitos por cordas, desempenhada pelos académicos Neves Pereira, Alfredo Correia, Jerónimo Sampaio, António Amaral e pelas amadoras Ana Roriz e Cândida Guimarães.
Nos intervalos do 1.º, 2.º e 3.º actos recitaram poesias os srs. Francisco Martins Ferreira, António Francisco da Silva e Jerónimo Sampaio.
Terminou o espectáculo com a comédia em 1 acto Um fura-vidas, por Jerónimo Sampaio, Neves pereira, Alfredo Correia, Domingos Agra, António do Amaral e Ana Roriz.
O espectáculo agradou em geral, e prova esta asserção o grande número de aplausos e flores com que a selecta sociedade, que enchia literalmente o teatro, galardoou o trabalho dos briosos académicos.
A parte musical, a cargo do professor Sr. Paranhos, também foi executada magistralmente, e por este motivo foram justas as muitas palmas que recebeu.
NA SEXTA-FEIRA
Pelas 8 horas da noite os académicos em grande marcha aux flaumbeaux andaram às posses, e depois tiveram o divertido magusto.
[Povo de Guimarães, N.º 6, 1.º ano, Domingo, 6 de Dezembro de 1896]
O BANDO
Saiu no domingo, como estava anunciado.
A chuva impertinente que caiu durante a tarde não conseguiu arrefecer o entusiasmo dos briosos académicos.
Uns a cavalo em
"Lindas exibições, fantásticas folias
Que só em Guimarães as houve nestes dias."
Outros a pé, fazem
"Que as peles rufem bem, berrem com bizarria,
Retumbando no espaço um eco de alegria."
Num landeau tirado por duas magníficas parelhas, vinham o presidente da comissão dos festejos, que recitava o pregão, e o primeiro e segundo secretários.
Aquele dizia que
". . . . . . . . . . . . . . . .Estudantes não vergam
A cerviz, a quem quer que pretenda mandá-los,
Quer seja um Rei, quer mestre de badalos."
Ficámos cientes.
O CORTEJO ACADÉMICO
Na segunda-feira de tarde, saiu da Escola Industrial assim organizado:
À frente os indispensáveis tambores e zabumbas; seguiam-se três académicos montados em bons cavalos, um dos quais empunhava a bandeira da academia; a filarmónica União executava o hino académico, precedendo-a a dança das lavradeiras e picadores. Fechava o préstito o carro triunfal conduzindo sobre uma enorme esfera a figura de Minerva empunhando um facho.
Depois de percorrerem algumas ruas, recolheu-se cerca das 7 horas da tarde, excepto a dança que visitou as casas das principais famílias de Guimarães.
Na sala da nossa redacção estiveram às 11 e meia, demorando-se até à meia-noite.
O académico Sr. Jerónimo Sampaio, num brinde feito ao nosso director, agradeceu em nome da academia as palavras de deferência tem tido para com a mesma academia, e muito especialmente para com os académicos que tomaram parte nos festejos de S. Nicolau. Por último, foram levantados vivas calorosamente correspondidos pelo muito povo que ainda os acompanhava.
Pela nossa parte agradecemos e desejámos que para o ano os vossos folguedos venham novamente arrancar Guimarães à sua monotonia habitual.
[Povo de Guimarães, N.º 7, 1.º ano, Domingo, 13 de Dezembro de 1896]
O Mosteiro da Costa em 1928, fotografia de "O Labor da Grei", editado por Francisco Martins (encontrada no Arquivo da Sociedade Martins Sarmento).7 de Janeiro de 1774: Carta régia criando em Guimarães uma cadeira de Latim e nomeando por 3 anos professor da mesma ao presbítero secular António Lobo de Sousa com o ordenado anual de 240$00 réis cobrado na folha dos professores da comarca e Câmara da vila de Guimarães. Esta cadeira, que, com alguma interrupção, funcionou até 1869 em que foi aposentado o seu último professor Francisco Pedro da Rocha Viana - o Venâncio, não se lhe tendo sucessão até à criação do Pequeno Seminário.
8 de Junho de 1780: Provisão nomeando professor interino da escola de ler, escrever e contar, em S. Romão de Arões, a António Gomes de Andrade, a qual estava vaga e ele desejava abrir a 3 de Julho no lugar da Venda onde residia.
11 de Setembro de 1783: Provisão autorizando por um ano o Veríssimo Francisco, de Moreira de Cónegos, a dar escola de ler, escrever e contar a quem com ele quisesse aprender.
14 de Maio de 1784: Provisão concedendo licença a Manuel José Esteves, de Santa Comba de Regilde, deste termo, para aí abrir uma escola de primeiras letras.
26 de Abril de 1792: Provisão nomeando professor de primeiras letras substituto Boaventura Ribeiro do Lago, para a escola de S. Martinho de Sande, vaga pela desistência que dela fez José Ribeiro do Lago.
[in Efemérides Vimaranenses, de João Lopes de Faria. Manuscrito da SMS.]
2 de Maio de 1694: Gualter de Nazareth e outros devotos, moradores na cidade do Porto, tendo alcançado licença do D. Prior para colocarem na igreja da Colegiada uma imagem do Senhor da Agonia, para o que tinham mandado fazer uma tribuna, requerendo ao dito D. Prior para que ele e os seus súbditos acompanhe na tarde deste dia a solene procissão em que a referida imagem, que vinha do Porto, era conduzida para a Colegiada e aí colocada no local (em que ainda está) com toda a pompa e aparato, para o que estavam convidadas todas as comunidades e irmandades da vila. O D. Prior despachou o requerimento, ordenando ao seu escrivão notificasse a todos os cónegos, padres capinhas e mais súbditos, que sob pena de 20 cruzados e 20 dias de cadeia, o acompanhem em corpo de comunidade na dita procissão. Esta ordem foi notificada ao Cabido pelo escrivão Dâmaso da Costa, às 7 horas da manhã; o Cabido em sessão às 2 horas da tarde requereu ao notário apostólico João Pinto, lhe tomasse protesto que só por devoção e serviço do Bom Jesus o ia buscar, sem que com isto fosse prejudicado todo o seu direito, nem pudesse alguém aproveitar-se de semelhante acto para encontrar a jurisdição dele Cabido, nem menos a respeito de S. Nicolau que trazia e estava pendente, pois também tinha dado as mesmas licenças o D. Prior aos supraditos devotos para a colocação da imagem. Seguiu-se uma apelação do Cabido para a relação de Braga, que por acórdão de 15 de Março de 1695, revogou o despacho, por a procissão não ser das do estatuto da Colegiada, nem daquelas que os prelados podem por direito obrigar os seus súbditos a acompanhar.
7 de Abril de 1740: Provisão concedendo ao padre Leandro de Castro, morador na Rua de Gatos, licença para continuar a ensinar gramática, que já ensinava há vinte anos, o que era de utilidade, pois os estudantes pobres não podiam ir para Braga e eram vigiados pelos pais; e foi ouvida a Câmara, nobreza e povo e ministros que informaram bem. - Lº 100 de D. João V, fl.22
1 de Novembro de 1755: Num pequeno folheto manuscrito de curiosidades, por um frade da Costa, pertencente que foi ao seu real mosteiro, lê-se: - Memorável será para todos os séculos o dia de todos os Santos do ano de 1755 pelo terramoto com que o céu atemorizou a todo Portugal, e grande perda de vidas, e fazenda, que houve em Lxª, e suas vizinhanças. Por todo o ano adiante continuaram, ainda que não com a violência e estrago do primeiro. Em todo o Reino se fizeram procissões de penitência. Em Guimarães saiu o Cabido descalço. Os estudantes saíram também com a imagem de N. Pe. (S. Jerónimo penitente) que nos vieram pedir para isso, que alguns Monges acompanharam e pregaram, em S. Dâmaso, donde saiu a procissão, à porta da Colegiada, no terreiro de Sta. Clara, no do Carmo, no da Misericórdia, no Toural, no das Dominicas, e outra vez no Toural, para a parte de S. Dâmaso, aonde se recolheu a procissão.
"No final da festa, e por culpa do vigor dos participantes, os bombos ficam muitas vezes maltratados."
Festas Nicolinas numa fria noite de Novembro, o rufar ensurdecedor de milhares de bombos e caixas não deixa dúvidas: o "pinheiro" está em marcha! Pelas ruas de Guimarães, a turba move-se a toque de caixa, acompanhando o enorme pinheiro, puxado por uma junta de bois e enfeitado com fitas e lanternas de cores cálidas. Realizado a 29 de Novembro, o momento marca o início das Festas Nicolinas.
A mais antiga referência histórica a estas festas remonta a 1663 e há várias explicações para as suas raízes. A mais consensual aponta para uma representação simbólica da virilidade masculina. Tradicionalmente, apenas os homens integravam o cortejo. Embora hoje todos nele participem, a Comissão de Festas Nicolinas, com dez membros, continua a ser um reduto exclusivo dos rapazes.
Sinal do papel que têm na sociedade vimaranense, por toda a cidade se encontram à venda bombos e caixas. Na noite do Pinheiro, as peles tensas tingem-se muitas vezes de sangue das mãos, tal a violência do toque! Rui Macedo, presidente da Comissão em 2006 e 2007, explica: "É muito especial para nós organizar estas festas. Sentimos a responsabilidade de manter a tradição, é algo que vem de dentro." Os "velhos nicolinos" também estão presentes. Miguel Vieira, um antigo estudante, conta: "Em 1997, estava a viver em Moçambique e seria a primeira vez que iria falhar o Pinheiro... Não resisti. Meti-me num avião e nessa noite cá estive a tocar caixa até de madrugada!"
"Quanto à geração nova, aqui há uns três anos, na ocasião da grande ceia no Jordão, a que compareceram uns trezentos velhos nicolinos, a Academia do Liceu foi representada por uma deputação de uns cinco ou seis rapazes.
Fiquei na mesa de cabeceira, na extremidade direita, e na mesa perpendicular estava essa deputação muito comprometida no meio da alegria barulhenta de toda aquela velhada.
Diante de cada conviva uma garrafa, destas de litro, com o belo verde, magnífico.
Os velhos e velhotes todos fizeram as honras da pinga, e cascaram-lhe quase como nos bons tempos, alguns até esgotaram a garrafa.
Pois aqueles cinco ou seis anjinhos andaram, entre todos, por garrafa e meia, ò resto foram águas das Pedras, sem se lembrarem de que há um milhão de portugueses que vive desse trabalho da colher e engarrafar aquela deliciosa pinga.
E no Pregão do ano passado o Torcato Simões, em versos braulianos, invocando as tradições nicolinas, apelava para o entusiasmo da rapaziada a cascar nos bombos com alma e músculo, de “maçanetas ao alto” até lhes arrebentar as peles.
Pois sim, assisti ao seguinte espectáculo: – dois garotitos, que nem estudantes eram; seguravam um bombo de barriga para o ar, e um grandalhão do Liceu ia-lhe dando umas maçanetadas bastante anémicas...
Bons tempos os do Brito, Beiçarola, Pai Casaca, Fortunato Sampaio, Rodolfo Aguiar e outros, que lhe puxavam com alma até lhes meter os tampos dentro, e até apagavam os candeeiros, de petróleo, da iluminação da Câmara.