sábado, 10 de novembro de 2007

As Nicolinas há meio século

"Quanto à geração nova, aqui há uns três anos, na ocasião da grande ceia no Jordão, a que compareceram uns trezentos velhos nicolinos, a Academia do Liceu foi representada por uma deputação de uns cinco ou seis rapazes.

Fiquei na mesa de cabeceira, na extremidade direita, e na mesa perpendicular estava essa deputação muito comprometida no meio da alegria barulhenta de toda aquela velhada.

Diante de cada conviva uma garrafa, destas de litro, com o belo verde, magnífico.

Os velhos e velhotes todos fizeram as honras da pinga, e cascaram-lhe quase como nos bons tempos, alguns até esgotaram a garrafa.

Pois aqueles cinco ou seis anjinhos andaram, entre todos, por garrafa e meia, ò resto foram águas das Pedras, sem se lembrarem de que há um milhão de portugueses que vive desse trabalho da colher e engarrafar aquela deliciosa pinga.

E no Pregão do ano passado o Torcato Simões, em versos braulianos, invocando as tradições nicolinas, apelava para o entusiasmo da rapaziada a cascar nos bombos com alma e músculo, de “maçanetas ao alto” até lhes arrebentar as peles.

Pois sim, assisti ao seguinte espectáculo: – dois garotitos, que nem estudantes eram; seguravam um bombo de barriga para o ar, e um grandalhão do Liceu ia-lhe dando umas maçanetadas bastante anémicas...

Bons tempos os do Brito, Beiçarola, Pai Casaca, Fortunato Sampaio, Rodolfo Aguiar e outros, que lhe puxavam com alma até lhes meter os tampos dentro, e até apagavam os candeeiros, de petróleo, da iluminação da Câmara.

E já não há o 1.° de Dezembro, porque os rapazes têm todo o tempo tomado, e a “Bola” não lhes dá ocasião para se divertirem..."

António de Quadros Flores (Coronel), Guimarães na última quadra do romantismo, 1898-1918, Tipografia Ideal, 1967, cap. XXIX, págs. 156-157.

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